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NINFOMANÍACA 2 (Nymphomaniac)


por Tiago Paes de Lira

Ao fim da sessão de Ninfomaníaca – Volume 2, é notório que seria melhor assistir as duas partes do novo filme de Lars von Trier juntas. No máximo, com um intervalo de quinze minutos entre uma e outra, pois fica claro que a história não foi pensada para ser dividida. Apesar disso, a segunda parte – ou melhor, o terceiro ato – tem um ritmo melhor e mais interessante. Essa indesejada quebra deve servir de incentivo para assistir o filme completo e sem cortes, como era a ideia do diretor.

Nessa parte, Joe (Charlotte Gainsbourg) continua contando suas experiências para Seligman (Stellan Skarsgård), focando agora na perda de sua sexualidade e na busca por reavê-la de qualquer jeito, concluindo com os últimos três capítulos: “A Igreja Ocidental e a Oriental (O Pato Silencioso)”, “O Espelho” e “A Arma”.

ATENÇÃO: Essa crítica não é recomendada para menores de 18 anos e contém spoilers do Vol 1.

Primeiro, uma sugestão: reveja o volume 1 antes de partir para o 2 com o menor tempo diferença possível. O problema do corte entre um outro é perceptível logo nos primeiros dois minutos de projeção do segundo filme. A cena final do volume 1 mostra a jovem Joe (Stacy Martin) chorando depois de se reconciliar com Jerôme (Shia LaBeouf). Fica a impressão que o sentir nada que ela expressa é em relação à ele. Mas ela admite logo depois que tinha perdido era, literalmente, o tesão. Depois de centenas – milhares? – encontros sexuais, as relações normais não satisfaziam mais a Joe. Por isso a tristeza, mas isso passa despercebido com a distância entre os filmes.

Vendo um filme perto do outro, você notará as constâncias do diretor: a diferença entre os flashbacks, que continuam tensos, e a tranquilidade da câmera no tempo presente, onde Joe se sente segura, e também análise e paralelos que Seligman faz. Existe um curto ponto de virada onde Joe consegue arrancar do solteirão que ele nunca esteve com uma mulher – ou um homem – o que vai justificar no flashback a leitura sexual que Joe consegue fazer. Interessante que nessa contra-analise é Seligman que ganha o foco momentâneo da câmera, que vai se aproximando cada vez mais da cara redonda do personagem.

De novo, o espectador mais atento vai notar a questão do corte que chegou ao Brasil, mas de menor expressão. Na cena em que Joe e Seligman divagam sobre um ícone russo que representa o nascimento de Jesus, existe um pulo de um momento para o outro. Existem duas percepções que podem ser aplicadas: a primeira é para encurtar pouco a pouco o filme, já que parece que ali havia uma contemplação ou um diálogo mais longo sobre o assunto que se perdeu; o outro está na própria filmografia do diretor. Em Anticristo (Antichrist, 2009), por exemplo, esse tipo de montagem chamada visível – onde a intenção é exatamente essa, notar que o que vemos não é a realidade, mas sim uma representação dela – aparece mais de uma vez. Mas no filme de 2009 ela parece com mais propósito. Seria necessário uma comparação mais profunda, mas valerá a pena rever ambos os filmes para notar isso.

Aliás, o diretor homenageia a própria filmografia em outro momento. Quando Joe – já envelhecida para ser a personagem que conta a história para Seligman – tenta reaver seu desejo perdido se entregando ao sadismo de K (Jamie Bell), ela chega ao extremo de deixar o filho sozinho em casa sem supervisão nenhuma. Nisso, a criança sai do berço numa noite que neva e começa a tocar ao fundo Lascia ch’io pianga, de Handel, a mesma música que foi usada em Anticristo quando o bebê do casal cai da sacada e morre. Sendo o diretor que é, von Trier não se repete, mas cria uma tensão pra quem conhece seus filmes.

A relação entre Joe e Jerôme cria escalas sem precedentes. Por um momento, ele cede à personalidade dela, comparando-a com uma tigresa que precisa ser alimentada e consente que ela tenha outros encontros sexuais para se satisfazer. Ela até pede carinhosamente “preencha todos os meus buracos”, e ele admite que não consegue. Parece por um momento que ele tem uma alma altruísta e que se sacrificaria pelo seu grande amor. O que não dura muito tempo, e o que dá corda para Jerôme fazer certas chantagens emocionais.

O sexto capítulo é o de maiores mudanças na protagonista. O desespero por perder a sua sensibilidade a leva ser esquecida, por isso a gravidez, e o envelhecer rápido. Num período de três anos depois do parto, a personagem deixa de ter a fisionomia de Stacy Martin para a de Charlotte Gainsbourg, ainda que as atrizes tenham quase 20 anos de diferença. Não veja isso como um exagero, porque a intenção do diretor foi evidenciar o que a perda da essência de Joe fez. Algo que ela tinha desde criança e uma ligação num misto de divino e profano. O maior paralelo que Lars von Trier faz nessa passagem de tempo é não mudar o ator que interpreta Joe. Apesar do mesmo tempo passar para os dois, Jerôme ainda tem a cara de Shia LeBouf.

É satisfatório ver a capacidade de von Trier em criar personagens interessantes. Pela duração do filme, isso acontece mais de uma vez. O já citado K tem um jeito tão peculiar de cuidar de suas cadelas, num misto de dominação, dor e respeito que é espetacular. Quando conhecemos o masoquista, notem que nenhuma das mulheres que são atendidas por ele trocam olhares, numa relação de submissão que chega ao ponto dele chamar Joe de Fido – e dar outros apelidos pejorativos às outras mulheres. Ao mesmo tempo em que ele gosta de infligir dor, K tem um carinho distorcido com elas: as ajuda a se despirem, pede um período de descanso para que se recuperem e tem chicotes separados para cada uma delas. É um personagem perturbado que leva Joe à um novo patamar de sua sexualidade. A cena de preparação do espancamento que a protagonista está prestes a levar apenas poderia ser mais longa. A demora para começar e a expectativa do que viria seria muito mais agonizante para o público.

E finalmente temos P (Mia Goth), dotada de uma beleza incomum e inocente. Quando não consegue se adaptar a um emprego normal e entender que a sociedade não a aceitaria, Joe abraça seu lado masculino. Ela trabalha como coletora de dívidas por sugestão de L (Willen Dafoe), um trabalho que é majoritariamente ocupado por homens, e se envolve com P. Essa é outra perversão, diferente da de K, mas também questionável porque a ninfomaníaca cuidou de P desde antes ela se tornar uma mulher. O que era um negócio – onde Joe passaria seu ofício quando P fosse mais velha – virou uma paixão que pela primeira vez lhe trouxe ciúmes.

O que temos neste filme é a busca que muitas outras obras repetiram. Joe procura seu lugar no universo, fora das amarras clássicas da sociedade, representada por uma árvore distorcida, pendendo ao abismo – momento em que a música original aparece pela primeira vez no filme – numa linda relação que ela teve com o pai (Christian Slater). Ela diz nos primeiros momentos da primeira parte que é uma pessoa horrível, e conta sua história para que Seligman a julgue em relação à isso.

Portanto, o ponto-chave dos dois volumes de Ninfomaníaca é exposto claramente na fala de Seligman: a sociedade não se chocaria tanto se Joe fosse um homem. E pela primeira vez todos entenderão por que uma mulher tem um nome masculino. É verdade que atualmente é mais aceitável que um homem transe com inúmeras mulheres ou com mais de uma ao mesmo tempo. Ao trazer uma mulher como protagonista, Lars von Trier dá uma tapa na cara de muita gente. As decisões de Joe foram dela e somente dela. Um dos maiores méritos do filme é a dificuldade de prever o final. Claro, pela nome dos capítulos sabemos que é uma tragédia. Mas a construção de cena dá várias possibilidades, o que não deixa de ser uma surpresa. E o demérito fica pelas cenas de sexo explícito, ainda questionáveis. Os dois filmes devem ser vistos como um só para uma nota mais justa. Por enquanto, fica essa melhora substancial que, agregada à primeira, sem dúvida melhora a experiência. Agora é esperar para a oportunidade de assistirmos tudo de uma vez e confirmar se o sentimento é esse real.


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MINUTOS ATRÁS


por Beto Besant

"Cinema é imagem" - máxima cinematográfica quase unânime que provavelmente encabeçaria "Os Dez Mandamentos do Cinema", se existisse tal lista, vez ou outra é posta em cheque por cineastas que buscam um caminho mais autoral ou pelos egressos do teatro. Aqui temos um bom exemplo de como regras podem ser quebradas por quem tem talento.
Em Minutos Atrás, Alonso (Vladimir Brichta) e Nildo (Otávio Muller) são mendigos que seguem pela estrada com uma carroça puxada pelo cavalo Ruminante. Nessa viagem, que não tem caminho determinado nem destino, os amigos reavaliam suas vidas pregressas e futuras, sendo testados sobre suas convicções e capacidade de resiliência. O cavalo Ruminante é interpretado pelo ator/cantor Paulinho Moska que por vezes é revezado com o animal real.

Dirigido pelo poeta e dramaturgo Caio Sóh (que estreou no cinema com o filme Teus Olhos Meus, de 2011), o longa-metragem é uma adaptação de sua peça teatral homônima e consegue um belo resultado na telona. Os atores estão impecáveis em papéis que facilmente poderiam cair no caricato. Um exemplo disso é que o filme consegue uma justificativa para que Brichta pinte o rosto de branco, como numa maquiagem teatral, de forma bem verossímil. Moska alcança um bom resultado em sua interpretação de cavalo.
 
Os pontos fortes são a fotografia - muito precisa e interessante, ao colocar os personagens coloridos em paisagens preto e branco e a direção de arte - rica e detalhista naqueles personagens miseráveis.
 
O grande problema do filme foi a opção do diretor em manter a narrativa teatral da peça, onde há um excesso verborrágico. Apesar dos diálogos interessantes, chega um momento em que precisamos lutar a todo custo para não perdermos a atenção no que eles dizem. Para piorar, a trilha sonora de André Abujamra e Paulinho Moska opta por sonorizar o filme a ponto de não deixar um minuto de "respiro" (ou de descanso aos ouvidos), o que somados resultam em algo cansativo.
Esta fábula poderia ser entendida como se os dois amigos fossem aspectos de uma mesma pessoa - Alonso a face mais esperançosa e alegre e Nildo a face mais melancólica e desiludida. A viagem pode ser interpretada como nossa existência e suas dificuldades, que nos propulsiona a enfrentar as dificuldades diárias.

Por vezes acontecem tentativas de subverter a máxima citada no início do texto, o que raramente resulta de forma positiva. Mas este filme consegue mesclar teatro e cinema de forma bastante interessante.


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CAÇADORES DE OBRAS-PRIMAS (Monuments Men)


por Antonio Carlos Egypto

Como é possível preservar obras de arte fundamentais para a história da humanidade em meio aos bombardeios e aos saques, roubos, promovidos pelos nazistas? Hitler tinha como projeto o maior museu de arte do mundo, meticulosamente planejado, e já havia feito o registro das obras artísticas naquele que seria o maior roubo da história, envolvendo 5 milhões de objetos culturais. Ao mesmo tempo em que efetuava esse grande roubo, destruía a arte contemporânea inovadora e crítica, queimando obras de Picasso, por exemplo. Para o nazismo, essa arte era degenerada e tinha de desaparecer. Parece, mesmo, um milagre que o grande acervo cultural da humanidade tenha sobrevivido a essa insanidade toda, da mentalidade nazista e da própria guerra.

Caçadores de Obras-Primas, filme dirigido e protagonizado por George Clooney, se baseou no livro Monuments Men, de Robert M. Edsel, que conta a história de um grupo de homens, um batalhão especial, que se dedicava a salvar obras de arte roubadas, em meio à guerra. Esse grupo, que envolveu homens e mulheres, chegou a ter 350 soldados, de 13 países. Foi a maior caça ao tesouro de que se tem notícia. Começou em 1943, quando o Eixo começava a perder a guerra, e se estendeu até 1951. Na realidade, até hoje se estão encontrando obras perdidas durante a guerra e, surpreendentemente, em grande quantidade, segundo relato de diversas publicações atuais.

Entre as obras-primas que foram perseguidas e resgatadas pelos Monuments Men havia pinturas de Rembrandt, Leonardo Da Vinci, Vermeer e até a Madonna, de Michelangelo, saqueadas de coleções particulares, sobretudo de judeus, igrejas e museus. O livro e também o filme registram a atuação de uma dezena de soldados atuando no resgate das obras, principalmente na França, Bélgica e Alemanha.


A história, sem dúvida, é muito boa e atualíssima. Escrita por um texano que se mudou para Florença para estudar artes e foi aí que se questionou sobre como as obras-primas da civilização ocidental tinham sobrevivido à Segunda Guerra Mundial. Transformou em romance a trajetória desses homens dedicados à arte e seu heroísmo único, com base em extensa pesquisa que visava a resgatar essa verdade histórica tão positiva, abordando a guerra por um novo ângulo. Aliás, são infindáveis os ângulos pelos quais ainda se pode falar da Segunda Guerra Mundial, um assunto que parece inesgotável.


O filme Caçadores de Obras-Primas, além de contar com a figura carismática de George Clooney, desta vez também na direção, teve um elenco estelar vivendo os heróis da guerra pela arte. Matt Damon, Bill Murray, John Goodman, Cate Blanchett e até o astro francês de O Artista, Jean Dujardin, fazem parte do elenco. A produção é bem cuidada. É um filme bem feito.

Algumas coisas incomodam, no entanto. A visão heróica, desprendida, dos Monuments Men, seu patriotismo e destemor, são clichês de filmes de guerra. Os personagens, ainda em 1943, se comportam como se já soubessem de tudo o que viria após o fim da guerra que, diga-se, ainda não estava ganha.


A narrativa é convencional e deixa para os minutos finais de suspense a peça mais importante. Ou seja, o esquema previsível de sempre. Não há inovações, quando muito, reverência aos antigos filmes de guerra. Para uma história tão interessante como essa, o filme deixa a desejar. Não empolga, não brilha. E teria tudo para entusiasmar. Mas nem por isso deixa de ser um filme interessante de se ver. É só não esperar demais.


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QUANDO EU ERA VIVO


por Antonio Carlos Egypto

O cinema brasileiro explora pouco o gênero do horror, do fantástico. Com a relevante exceção de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Fora ele, pouca gente tem se aventurado. Marco Dutra, em parceria com Juliana Rojas, já havia feito uma ótima incursão nesse terreno, com o filme Trabalhar Cansa, de 2011, partindo do realismo do mundo do trabalho, de forma concreta, para chegar a monstros emparedados.

Em Quando Eu Era Vivo, Marco Dutra dirige uma adaptação do livro A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, de Lourenço Mutarelli. O autor do livro tem uma participação especial no filme.

Os temas trabalhados são os vínculos familiares, os fantasmas que por ali circulam e a questão de como lidar com o passado, que assombra, pode paralisar, mas foi quando os afetos se consolidaram. A loucura, o bem e o mal, não poderiam faltar ao gênero. Mas o interessante aqui é que seus limites e possibilidades estão bastante borrados, de modo que é difícil saber o que é uma coisa e o que é a outra. Esse suspense se sustenta até o fim do filme e traz surpresa.

O embate fundamental se dá entre Júnior (Marat Descartes), recém separado por meio de um divórcio traumático, que retorna à casa paterna, e Sênior (Antonio Fagundes), seu pai viúvo, que está tratando de reconstruir sua vida. Júnior se apega ao passado, às lembranças da mãe e do irmão, agora ausente, internado numa clínica. Sênior, ao contrário, enfurnou as coisas do passado num quartinho fechado e tem um apartamento que respira atualidade, preocupações com a saúde e o bem-estar.

A casa é, por sinal, um personagem central do filme. É pelas transformações que vão ocorrendo nela que se configuram os mundos do pai e do filho. Até as cores de iluminação mudam. Do começo para o meio e o fim do filme, a casa se transforma passo a passo, dando lugar às lembranças, obsessões e fantasmas que povoam a vida dessa família, pela ótica de Júnior, em contraponto à do pai. E vão se revelando as coisas não resolvidas da família.

A personagem Bruna (a cantora Sandy), jovem estudante de música, é inquilina na casa e servirá de elemento catalisador das loucuras de uma família da qual ela não faz parte. O irmão ausente, Pedro (Kiko Bertholini), terá sua presença na vida adulta e atual de Júnior e Sênior. Mas os dois irmãos, na infância, e a mãe que morreu, estão presentes no filme pelos registros do passado. A solução do diretor foi filmá-los em VHS e, assim, incluí-los na história. A solução é muito boa, porque a imagem remete ao passado recente dos videocassetes, suas imperfeições e riscos, assim como à cor amarelada.

Misteriosas cabeças de gesso adicionam o elemento fantástico que agrega mais suspense à trama. A filmagem e a interpretação do protagonista-filho nos fazem lembrar do clássico O Iluminado, de Stanley Kubrick, de 1980, em alguns momentos, assim como de outros filmes de terror. Mas Quando Eu Era Vivo explora principalmente o horror psicológico, o das mentes conturbadas, o dos impulsos e dos medos. A violência é moderada e não há sangue jorrando. É tudo mais sutil, situa-se no mundo interno dos personagens.

Um ótimo elenco dá boa sustentação à trama de horror que se desenvolve. Marat Descartes tem se revelado um ótimo ator, com presença marcante em bons filmes brasileiros. Foi o protagonista de Trabalhar Cansa, do mesmo diretor e de Super Nada de Rubens Rewald, por exemplo. Antonio Fagundes é sempre um grande ator em cena, seu Sênior é muito convincente. Sandy Leah canta e lida com música no filme, o que a liga a seu universo habitual, está bem no papel de Bruna. O personagem de Gilda Nomacce se insere na trama com uma atuação cativante. Tuna Dwek participa de uma sequência do filme, pequena, mas muito intensa, um momento forte da história. Não dá para esquecer.

O diretor Marco Dutra reafirma seu talento e se qualifica para novas incursões num gênero de terror que não se distancia do mundo em que vivemos e onde estamos, dialoga com ele, revela seu avesso.


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A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS (The Book Thief)


por Beto Besant

Sempre que se cogita adaptar um livro para o cinema, ainda mais no caso de um best seller, a primeira coisa que se especula é se o filme será fiel ao livro. Como dizia Tim Maia: "Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". Há que se diferenciar cinema de literatura. O cinema não tem obrigação nem deve manter fidelidade ao livro. E se for preciso antes ler o livro para "entender melhor a história" é porque o filme não foi bem executado. Portanto, vou me ater à obra cinematográfica, o que motiva estes comentários.



Na história, Liesel Meminger (Sophie Nélisse) é enviada junto com seu irmão para morar com um casal alemão - mediante pagamento, uma vez que sua mãe é perseguida pelo nazismo. No caminho seu irmão morre e ela rouba o primeiro livro durante o enterro.

Seu pai adotivo Hans (Geoffrey Rush) é um bom homem, sempre carinhoso e compreensivo, que em muito lhe ajuda a superar as dificuldades de sua nova vida. Por outro lado, sua mãe adotiva Rosa (Emily Watson) é disciplinadora e rígida.


Na escola, a garota conhece o jovem Rudy (Nico Liersch), menino alemão que nutre uma paixão platônica pela garota. Ela porém, deixa subentendido o mesmo tipo de sentimento por Max (Ben Schnetzer), judeu cuja mãe foi morta e seu pai fez muitos favores aos donos da casa, e por isso aceitam a perigosa missão de lhe esconder no porão da casa. Hans e Max lhe ensinam a ler e incentivam para que pegue gosto pela leitura. Conforme surge alguma oportunidade, a menina rouba algum livro.

A história é contada de forma falha e os horrores da guerra são muito suaves comparados aos relatos conhecidos. A direção de Brian Percival erra ao tentar abordar o tema de forma leve, para atingir a todos os públicos, principalmente as crianças - que poderiam se identificar com Liesel e Rudy. O elenco está bem, com desataque para Geoffrey Rush e Emily Watson, que encontram o tom de seus personagens sem caírem no caricato. A fotografia e direção de arte são primorosas, mas o filme peca em tentar arrancar a emoção a todo custo com a trilha melodramática de John Williams.

Mesmo que adaptado, um filme não tem que depender do original, nem por obrigação de manter-se fiel ao livro, nem para que o público possa compreender a história. Este é o típico caso de filme que não se sustenta por si próprio.


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NINFOMANÍACA (Nynphomaniac)


por Tiago Paes de Lira

Fazer uma análise de caso na maioria dos filmes de Lars von Trier é um desafio. Ele é um cineasta de várias qualidades, participou do projeto Dogma, e trouxe mais de uma obra notável ao cinema. Um dos mais impressionantes diretores de uma onda mais recente do cinema – com aspas enormes, já que ele dirige desde os anos 1980 – Trier apresenta outra obra controversa: pela duração de cinco horas, que comercialmente teve que ser divida em duas partes, e o sexo explícito, trazido do cinema pornográfico para as salas comuns. Esse universo tem suas qualidades, mas também grandes problemas. Além do questionamento do por que usar cenas reais e não sugeridas, o que torna a experiência em algo sujo, seria muito melhor se não houvesse a divisão, ou se ela fosse pensada na sala de montagem de outro jeito.

ATENÇÃO: Essa crítica não é recomendada para menores de 18 anos.


Joe (Charlotte Gainsbourg), uma ninfomaníaca auto-diagnosticada, é encontrada por Seligman (Stellan Skarsgård) num beco, desmaiada e ferida. Quando não consegue convencê-la a ir a um hospital ou chamar a polícia, Seligman convida Joe para que descanse em sua casa. Ele a incentiva a contar a sua história, que é narrada por uma série de capítulos – cinco na primeira parte – sobre suas aventuras e desventuras sexuais enquanto Seligman, um homem muito culto, faz relação das histórias com música, pescaria e arte.

Trier joga qualquer senso de moralidade e bons costumes para alto quando, ainda nos primeiros minutos, mistura a narração de Joe dizendo “descobri minha boceta com dois anos de idade” com uma imagem infantil. A partir daí, podemos esperar tudo, até cenas de crianças simulando uma masturbação precoce num chão molhado. Desafiador, sim. Necessário, não. Pode parecer muito, e então não se espante por ver uma sequência de pênis (muitos, obviamente por ser uma visão feminina heterossexual) e vaginas na tela. E penetração verdadeira, realizada por atores pornográficos e montadas – muito bem, diga-se de passagem – para termos a impressão de que são os atores principais que estão transando.

E não pense que o diretor está sendo leviano com essa sujeira. Pelo contrário, ela a reafirma na primeira vez da jovem Joe (Stacy Martin) com Jerôme (Shia LaBeouf), que não limpa sua mãos de graxa para transar rapidamente com a personagem. Aqui a história faz um ligação das penetrações com a sequência fibonnaci (3 e 5) que Seligman consegue fazer uma relação quase do nada, que demorar a se repetir e, quando acontece, é forçada demais.

Trier não perdeu seu tino para criar e aprofundar personagens. Com poucos minutos de filme, conhecemos as características da dupla. O encontro de Joe com Seligman num blackout, como a percepção da própria protagonista; os sons diegéticos de água e metal rangendo que aos poucos são justificados, uma trilha subitamente pesada – Führe mich, do Rammstein –; Joe dizendo que não se importava ao sentir dor – auto-infligida –; e o figurino do pijama que ela usa lembra muito no seu padrão horizontal e cores apagadas com uniformes de campos de concentração nazistas – prisioneira de sua própria condição – são momentos incríveis e especiais da produção.

Deve se notar também o desprendimento de Joe com seus personagens. Além do Pai (Christian Slater), da Mãe (Connie Nielsen) e de Jerôme, Joe se distancia de todos os personagens chamando-os apenas por uma inicial. Nem mesmo a melhor amiga, confidente e competidora sexual B (Sophie Kennedy Clarke) escapa disso. Então temos a Sra H (Uma Thurman), F (Bro), entre outras letras e pseudônimos. Além disso, mostra que Joe não tem preferências por seus parceiros. Existe uma aversão aos que mostram pouca virilidade na sua visão, com a exceção, mais vez, de Jerôme e as alegorias intermináveis que o diretor faz, nesse caso, com um garfo de bolo.

Aliás, alegorias é o que não faltam no filme. A cena do trem em que Joe e B caçam parceiros, numa brincadeira que pouco tem a ver com prazer, como é focado na cara de Joe, Seligman passa vários minutos da projeção falando sobre táticas de pescaria e noções de correntezas em rios. Poderia ser menos irritante se a narração em off de Joe não fosse praticamente eterna. É muita coisa sendo falada como suporte ao que está sendo visto, o que torna o desenvolvimento maçante. É compreensível que o personagem aproxime as histórias de Joe de sua própria realidade, tanto que ele vai chegando mais e mais perto da cama onde ela está deitada, mas é muita coisa para ser contada e parece que o diretor quer fazer tudo ao mesmo tempo.

A divisão em capítulos é uma assinatura de Lars Von Trirer, e nisso ele se sai bem. Para citar dois exemplos, o Capítulo 3 (Sra H) é o mais tenso de todos, com cortes mais rápidos e o mais claustrofóbico, por se passar inteiramente no pequeno apartamento de Joe. O Capítulo 4 (Delírio) aposta na fotografia preto e branco e numa pequena introdução de A Queda da Casa de Usher (Edgar Alan Poe) para dar mais peso e dramaticidade à situação do pai de Joe, acamado e à beira da morte. Discursos sobre a morte, a fuga de Joe no sexo (como uma droga) e a conclusão – que lembra o ditado “cada um chora por onde sente mais saudade” – é o retrato poético da pessoa que a protagonista amou incondicionalmente nesta vida.

O primeiro Volume de Ninfomaníaca fecha com um capítulo que tenta invalidar a vida que Joe levava até então. Apaixonada por Jerome, ela quer desacreditar em tudo aquilo que antes era verdade no começo do filme, onde se rebelava contra o amor. Existe outra relação que Seligman faz com as aventuras sexuais de Joe. Ao transformar a relação que ela destaca entre três amantes – de dez diários – Von Trier transformar aquele momento em música, em poesia e, apesar de exagerar de novo na pornografia, acha uma beleza na vida Joe, que infelizmente termina em sinceras lágrimas.

Ninfomaníaca – Volume 1 tem problemas estruturais, de montagem e corte. Principalmente na versão que veio para o Brasil, que não é exatamente o filme divido em duas partes. Aqui, a California Filmes recebeu apenas a versão que não teve a montagem supervisionada pelo diretor, e não foi por opção. Mesmo assim, dificilmente as duas versões terminam de jeitos diferentes, e não há nada para segurar até o Volume 2, a não ser as inserções durante os créditos de cenas do próximo filme. Melhor seria ver o filme todo de uma vez, sem a divisão imposta pelo cinema comercial. Mas o diretor sabia que isso poderia ser um entrave, e falhou ao fechar a história da primeira parte do jeito que fez. Talvez numa apreciação inteira os problemas desapareçam. Por enquanto, só podemos analisar o que temos em mãos.


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Muita Calma Nessa Hora 2 - ENTREVISTA

Beto Besant entrevista o ator/roteirista Bruno Mazzeo e as atrizes: Gianne Albertoni, Andréia Horta e Débora Lamm, do filme "Muita Calma Nessa Hora 2". ASSISTA!!!





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PAIS E FILHOS (Soschite chichi ni naru)


por Antonio Carlos Egypto

Troca de bebês em maternidade acontecem e causam enormes transtornos. Imagine, então, se essa troca só for descoberta seis anos depois do acontecido... 

Os pais cuidam da criança, a educam, criam vínculos muito fortes, estabelece-se um padrão de identidade, um tipo e estilo de vida e de relacionamento familiar. Hábitos e costumes se solidificam. O que fazer? Esse é o dilema moral que o filme Pais e Filhos expõe, por meio de dois casais, as duas crianças trocadas, irmãos e familiares.

Um casal tem alto padrão de vida, um executivo que se dedica ao trabalho prioritariamente e um modo discreto de viver. O menino em questão tem tudo de que precisa e se dá bem com os pais. Como se pode imaginar, nem sempre pode contar com a presença do pai, que tem muitos compromissos. Mas isso não impede que vivam bem, sem maiores problemas ou sobressaltos.


A outra família tem posses bem mais modestas, o dinheiro pode fazer falta e impedir algumas coisas. A figura do pai é a de um homem simples, que não conquistou muitas coisas em termos econômicos, nada refinado, mas muito afetivo e brincalhão. Extremamente disponível para os filhos.

A eventual troca, como se vê, implicará grandes mudanças e questionamentos para todos, tanto para os pais, quanto para os filhos. Para se chegar a uma decisão, que terá de ser de consenso, muitas experiências serão feitas e avaliadas, passo a passo. 

O executivo, em especial, colocará em questão o seu papel de pai, pondo em cheque a hierarquia de valores das necessidades humanas. Os dois meninos, inevitavelmente, compararão os comportamentos, tanto paternos, quanto maternos, e as grandes diferenças que separam as duas famílias, sem condições de avaliá-las realmente. Sofrem, têm sentimentos intensos, mas também se divertem e descobrem coisas novas.

O dilema moral colocado pelo filme é isso: um festival de descobertas, sem necessidade de qualquer explicação. Os personagens bem construídos, especialmente os pais e as crianças, vivem o desafio de uma decisão que, em qualquer sentido, será dura, cruel e, talvez, equivocada. Não há verdades, nem certo ou errado, muito menos vilões e mocinhos. São gente de carne e osso, tentando se entender e fazer a coisa certa. Sofrendo para tentar acertar. As diferenças de classe social são reveladas, mas não são decisivas para a resolução do conflito. É de pessoas vivendo um drama familiar sem precedentes que se trata.

Pais e Filhos é um belo trabalho do diretor Kore-Eda, que tem se dedicado a lidar com questões atuais ligadas à família, destacando o papel das crianças, seus desejos e limitações. Foi assim em O Que Eu Mais Desejo, de 2010, ou Ninguém Pode Saber, de 2004. Estamos todos, crianças ou adultos, sujeitos a perdas, o tempo todo. O cinema de Hirokazu Kore-Eda, de forma leve, suave e até divertida, reflete sobre isso e nos faz pensar.

Pais e Filhos foi um dos maiores destaques da 37ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e segue, agora, sua carreira comercial no cinema. Ótima pedida.


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ENTREVISTA: Até que a Sorte nos Separe 2

Beto Besant entrevista a atriz Camila Morgado, o roteirista Paulo Cursino e o diretor Roberto Santucci, do filme "Até que a Sorte nos Separe 2".



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EU & VOCÊ (Io e Te)


por Antonio Carlos Egypto

Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori) é um adolescente de 14 anos, em busca de espaço para sua privacidade e autonomia. Tem problemas e dificuldades no relacionamento com colegas, já que é um tanto intolerante e ríspido. Em casa, com a mãe, o conflito é ainda mais intenso, já que envolve um amor edipiano explicitado, em meio a constantes brigas e discussões.
Olívia (Tea Falco), irmã mais velha de Lorenzo por parte de pai, fazia com muito talento fotografia artística, até afundar na dependência de drogas, especialmente da heroína, de forma intensa.


Lorenzo e Olívia são os dois personagens que conduzem a trama do novo filme do grande diretor Bernardo Bertolucci. Por razões diversas, eles acabam convivendo, por um período de tempo, num porão, escondidos das outras pessoas. O encontro se dá de modo fortuito, inesperado para ambos. É por aí que se apresenta a oportunidade do convívio que resulta em conhecimento mútuo, já que, apesar de irmãos, eles estavam separados e nunca se viam.
Criar uma situação que confina dois personagens por um período de tempo facilita a exposição das diferenças do mundo de ambos, do que é difícil de enfrentar para cada um e de que modo esses mundos podem se tocar e se entender. O que interessa ao diretor é trabalhar sentimentos, expectativas e as relações possíveis entre os irmãos. Consequentemente, o que muda em cada um com esse convívio forçado e confinado.
A transformação dos personagens e da relação entre eles vai sendo mostrada de forma progressiva e realista, apesar da situação artificial criada. “Io e Te” não cai na cilada da redenção, traz esperanças, mas mantém os limites. Crescer e mudar é possível, mas não esperemos milagres. É por aí.

Bernardo Bertolucci, um dos grandes nomes do cinema italiano, faz mais um trabalho rico e intrigante, focado em relacionamentos humanos, o que é uma constante na sua obra. Basta lembrar de “Os Sonhadores”, de 2004, ou de “O Último Tango em Paris”, de 1972, ótimos filmes que também colocam personagens em espaços fechados por um bom tempo.
Evidentemente, a trajetória de Bertolucci é tão marcante que há muito mais do que isso em filmes notáveis, como “Antes da Revolução”, de 1964, “O Conformista”, de 1970, “1900”, de 1973, “La Luna”, de 1981, “O Céu que nos Protege”, de 1990, “Beleza Roubada”, de 1996, ou “Assédio”, de 1998. É um autor cinematográfico, que sempre tem muito a dizer, com belas imagens.
Io e Te foi um dos filmes exibidos na mostra contemporânea do 8º. Festival de Cinema Italiano no Brasil, em 2012, e agora chega ao circuito comercial dos cinemas. 

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ALÉM DA FRONTEIRA (Out in the Dark)


por Beto Besant

Nimer (Nicholas Jacob) é um jovem palestino que estuda numa faculdade de Tel Aviv. Acaba conhecendo e se apaixonando pelo advogado israelense Roy (Michael Aloni). O romance sofre os problemas de serem de nacionalidades rivais. Além disso, um amigo dos jovens é executado por sua homossexualidade e Nimer tem seu romance descoberto pela família - isso numa cultura onde homossexuais não tem nem o direito à vida.
Os personagens são colocados numa situação limite e forçados a tomarem medidas extremas.


Filme de estreia do israelense Michael Mayer, começa como uma espécie de versão gay de Romeu e Julieta, mas, ao contrário de mais uma versão melodramática sobre o tema - como tantas feitas até hoje, este desenvolve-se de forma primorosa, mostrando-se um filme forte e maduro.

Não é preciso muito esforço para entender por que este filme arrebatou prêmios por diversos festivais onde passou, como: Toronto, São Francisco, Miami, Filadélfia, Nashville, Rochester, Guadalajara, Torino e Haifa. Além da Fronteira mescla de forma magistral: romance, suspense, ação e policial.

O romance, que tem como pano de fundo a rivalidade entre palestinos e israelenses, expõe a violência de uma cultura árabe, onde homossexuais não são aceito nem em sua própria casa e muitas vezes são executados. Ainda no âmbito da sexualidade, o personagem judeu tem sua orientação aceita por sua família, apesar de que esta não suporta ter que conviver com seu namorado. Isto mostra outra virtude do filme, a de não ser maniqueísta, caso a família judaica aceitasse a sexualidade do rapaz.

Os problemas políticos de se viver na fronteira são muito bem apresentados pelo roteiro, onde palestinos tem dificuldade para ir à Israel e porque seus habitantes temem que informações sejam levadas ao país rival.

O ritmo do filme é preciso, segurando o público durante seus 96 minutos, não deixando um minuto sequer sem necessidade (a chamada barriga).
Além disso, roteiro e montagem não cometem o erro de duvidarem da inteligência do espectador, não dando informação mais do que o necessário.

É um dos melhores filmes dos últimos tempos e vai agradar não apenas o público gay, mas a qualquer pessoa que queira ver uma boa trama.


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coletiva de CRÔ - O FILME


por Beto Besant

Crô, o personagem Clodoaldo Valério (Marcelo Serrado) da novela Fina Estampa (TV Globo - 2012/13) que enriqueceu no final do folhetim, com a herança deixada pela sua patroa (Cristiane Torloni). Com isso contrata o antigo mordomo Baltazar (Alexandre Nero) e a governanta Marilda (Katia Moraes).

O novo rico cansa de sua vida tediosa e se lança como cantor, monta um salão de beleza e uma grife de roupas, mas nada dá certo. Certo dia sonha com sua mãe (interpretada por Ivete Sangalo) e decide voltar a ser mordomo porque acredita que seu destino é servir.

Anuncia uma "seleção" para encontrar sua patroa e acaba conhecendo Vanusa (Carolina Ferraz), dona de tecelagem que explora imigrantes bolivianas junto com seu marido Riquelme (Milhen Cortaz).

Crô acaba por descobrir a forma desumana com que as funcionárias são tratadas e dá uma de James Bond pra salvar as bolivianas, dentre elas uma menina de cerca de dez anos.


Escrito por Agnaldo Silva, o autor de novelas com os maiores índices de audiência, Crô - o filme é uma tentativa rasteira de fazer dinheiro rápido unindo a atual moda de comédias brasileiras com um personagem de grande sucesso nacional a partir da telenovela.

O filme é uma sucessão de erros. Do roteiro, que tenta ser engraçado a todo custo mas está muito longe disso. Na desculpa de se fazer um "humor popular" parte-se pra um humor apelativo e estereotipado. O protagonista encarna o gay de programas populares, afetado e fútil, seu mordomo o homofóbico. A dona da tecelagem a nova-rica fútil que quer fama e dinheiro, e seu marido o latino violento e sem escrúpulos. E pra piorar, um filme que se pretende ser diversão pra família toda, tem uma morte que sai totalmente dos padrões do gênero.

Com estes personagens, o bom elenco não tinha o que fazer, a não ser representá-los da forma mais digna possível.
E pra piorar, a direção do experiente Bruno Barreto ("Flores Raras", "Dona Flor e Seus Dois Maridos", entre outros) só reforça as limitações do roteiro, repetindo à exaustão bordões bobos que não agradariam nem a uma criança. Outro erro - se é que isso seria possível, é um filme que, fadado a ter muitos rostos "televisivos", ainda completar seu elenco com nomes como Ivete Sangalo, Ana Maria Braga e Gaby Amarantos. Nada mais oportunista.

No último dia 13 de novembro, ocorreu em São Paulo a Coletiva de Imprensa para a divulgação do filme. 
A produtora Paula Barreto disse que fez o filme sem dinheiro de incentivo fiscal, pois queria lançar o filme pouco tempo após o final da novela. Por isso, o filme foi financiado por: Telecine, Paris Filmes, Downtown e LC Barreto, num total de cinco milhões e duzentos mil reais e lançamento em 400 salas de cinema.

Barreto conta que recebeu o convite de Marcelo Serrado para dirigir o filme, pois gostava do personagem, considerando-o uma espécie de Jerry Lewis.

É o típico filme-titanic, que tudo tem grife, roteirista, diretor, elenco e personagem, e o resultado é catastrófico. Pode até dar uma boa bilheteria, uma vez que quantidade não é sinônimo de qualidade, porém a única coisa que desejo é que Jerry Lewis não esteja se revirando em seu túmulo com tal comparação.


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TATUAGEM


por Antonio Carlos Egypto

“A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua furando nosso zinco,
Salpicava de estrelas nosso chão...
Tu pisavas os astros, distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão...”


Esses são os versos finais de “Chão de Estrelas”, letra de Orestes Barbosa para um grande clássico da música popular brasileira, que teve sua primeira gravação realizada em 1937 por Sílvio Caldas, também autor da canção.

O que tem isso a ver com o filme de Hilton Lacerda, “Tatuagem”? Chão de Estrelas é o nome de uma casa de shows e teatro alternativo, onde os personagens provocavam a ditadura brasileira da época, em 1976, no Recife. Um momento em que a ditadura militar já dava sinais de esgotamento, mas a censura permanecia ativa. Os espetáculos de cabaré do Chão de Estrelas procuravam mexer com a moral estabelecida, por meio do escracho, da nudez, do homoerotismo, de um modo um tanto histérico, alternando cantos, danças e performances, que usam letras chulas e palavrões, com belas canções da MPB. Daí se vê que o nome do estabelecimento não é gratuito, é uma homenagem à canção brasileira. Assim como a interpretação de “Esse Cara”, de Caetano Veloso, por Clécio (Irandhir Santos), marca o momento da conquista do soldado Fininha (Jesuíta Barbosa). Ou, ainda, o encerramento pregando a paz, após a guerra vivida, que convoca a gravação de Dalva de Oliveira para cantar, a plenos pulmões, “Bandeira Branca”. O que é mais alternativo reverencia a velha e nova MPB.



“Tatuagem” é um filme que mostra a resistência pelo lado da contestação anárquica, comportamental e de valores. É um filme libertário e, ao mesmo tempo, provocador, também para os dias de hoje. Podemos relacioná-lo na nossa história recente às contestações do teatro Oficina, do Zé Celso, dos Dzi Croquettes ou dos primeiros trabalhos provocadores do cinema de Pedro Almodóvar, na Espanha recém-liberada do franquismo. Para se contrapor à repressão, nada melhor do que a festa, correndo o risco de acabar na cadeia.


O diretor pernambucano Hilton Lacerda é um experiente roteirista de filmes, como “Baile Perfumado”, de 1997, “Amarelo Manga”, de 2003, “Árido Movie”, de 2004, “A Febre do Rato”, de 2011, entre outros. Codirigiu, com Lírio Ferreira, o ótimo documentário “Cartola – Música para os Olhos”, de 2007, outra incursão dele na música brasileira. Dirige agora seu primeiro longa de ficção, com muito vigor.

No elenco, o grande destaque vai para o protagonista Irandhir Santos, que a cada filme se afirma como um dos melhores atores do cinema brasileiro. Mas Jesuíta Barbosa e Rodrigo Garcia também dão bem conta de seus papéis, assim como o restante do elenco. “Tatuagem” venceu o Festival de Gramado, obtendo o Kikito de melhor filme. Foi exibido também no Festival do Rio 2013 e na 37ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.


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LAURA


por Beto Besant

Laura é uma atriz argentina criada no Brasil que vive em Nova Iorque em busca do estrelato.
Para isso, passa seus dias entrando nas festas baladas frequentadas por atores como Clive Owen, como se assim ela chegasse mais perto de sua grande chance em Hollywood.
Por trás de uma imagem glamourizada, esconde-se uma mulher de terceira idade com sérios problemas financeiros que alimenta desejos e sonhos de uma adolescente.


Dirigido por Fellipe Barbosa, grande amigo de Laura, o filme registra as aventuras e desventuras da atriz, cuja maior participação "artística" foi na plateia de um show do Roberto Carlos.

A rotina de filmagem, que começa como algo muito prazeroso e envaidecedor pra ela, torna-se um tormento e faz com que tenha crises de humor.

O filme começa com promessas de ser interessante, mas a fraca direção faz com que se torne uma espécie de Rodovia Transamazônica - pois leva "do nada para lugar nenhum".

Em determinados momentos, a atriz discute com o diretor - seja porque este quer que ela simule algo, e assim deixe de ser a realidade, seja porque não suporta mais uma câmera ao seu lado todo o tempo. Por se tratar de uma atriz, nunca sabemos se o que ela faz é totalmente espontâneo ou se é algo dramatizado.

Num dos bons momentos, vemos a atriz ao lado de Clive Owen tentando abordá-lo, mas é ignorada como se não estivesse lá.

Talvez com um montador experiente o filme se saísse melhor, explorando mais o contraste da vida que ela possui com a vida que almeja ao invés de ser um filme que não sabe se quer mostrá-la como uma pessoa admirável ou uma desequilibrada.


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SERRA PELADA


por Beto Besant

No início dos anos 80, o professor Joaquim (Júlio Andrade) deixa sua mulher grávida e parte para o estado do Pará com seu amigo de infância Juliano (Juliano Cazarré) com o intuito de enriquecer no garimpo de Serra Pelada. Lá a ganância vai transformando os amigos e deixando-os cada vez mais distantes entre si e de suas famílias. Logo tomam contato com a terra sem lei que é o garimpo, onde se mata por nada e pobres tornam-se ricos do dia pra noite, literalmente.


Escrito por Vera Egito e seu marido, o diretor Heitor Dhalia, Serra Pelada é uma grande produção, daquelas que até poucos anos não se via no cinema nacional. O casal encontrou uma forma eficaz de abordar o universo do garimpo, contando a história dos amigos que deixam suas casas e famílias em busca do sonho de enriquecerem encontrando ouro. O roteiro “bem amarrado” consegue se aprofundar e constrói um belo arco dramático (forma com que a história se desenvolve), mostrando como o dinheiro é capaz de mudar a cabeça do ser humano. 

Após encontrar sua primeira pedra de ouro, Joaquim fica seduzido pela riqueza e busca cada vez mais dinheiro, até o ponto onde vê que a busca daqueles homens acaba por transformá-los em semianimais, que passam por cima de qualquer coisa para terem cada vez mais dinheiro. Forçado a matar, para que pudessem continuar no garimpo, Juliano sente gosto pelo feito e se importa cada vez menos com o ser humano. Seduzido pela ganância de fortuna e poder, passa por cima até de seu amigo/irmão.

Os roteiristas criaram o personagem Lindo Rico, um dono de morro violento e sarcástico, especialmente para Wagner Moura, que teve de deixar o personagem Juliano por conta de um filme no exterior. Moura também é um dos produtores do filme. O único problema do roteiro é o excesso de voz off (de Júlio Andrade), como querendo explicar até cenas autoexplicativas. Este pequeno “problema” não deve incomodar ao público médio, mais acostumado com filmes mais “mastigados”. 

A direção de Dhalia é impecável, dando tensão na movimentação de câmera, porém sem exagero e extraindo o melhor de cada ator. O elenco formado por ótimos atores, merece destaque para Matheus Nachtergaele e Wagner Moura, este último consegue o tom perfeito, misto de engraçado e mau caráter. Em cada uma das poucas vezes que aparece em cena faz o filme ganhar novo sabor, com seus momentos mais engraçados. O talento de Moura faz com que este “tome conta da tela” a cada aparição.


Sophie Charlote estreia na tela grande interpretando Teresa, uma ex-prostituta que foi “adotada” aos treze anos pelo personagem de Nachtergaele. Charlote apesar de estar entre a “nata” do cinema nacional, não decepciona em sua participação.

O filme insere imagens documentai do garimpo, o que ressalta o excelente trabalho da direção de arte de Tulé Peake, pois quase não se nota a mudança da parte documental para a parte ficcional. A direção de fotografia de Ricardo Della Rosa também é precisa, transmitindo a aridez do garimpo e os corpos suados e bronzeados de seus trabalhadores.

Serra Pelada é um filme incrível, daqueles que nos dão orgulho de ver como o cinema nacional pode ser bem realizado. Infelizmente não é o tipo de trabalho que lota as salas de cinema.


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