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DE CORAÇÃO ABERTO (À Couer Ouvert)

 
 
por Beto Besant
 
Mila (Juliette Binoche) e Javier (Edgar Ramírez) são um jovem casal na faixa dos quarenta, que vive de forma intensa. Saem, se divertem (sozinhos ou com amigos), brincam, e mais do que tudo: transam muito e intensamente. Essa vida apaixonada de adolescentes é completada na profissão: ambos são cardiologostas e trabalham no mesmo hospital. Como já era de se esperar, nada é perfeito. Ele é alcoólatra e ela não admite uma criança para atrapalhar o estado de eternos apaixonados que vivem. Tudo começa a mudar quando ela engravida inesperadamente e ele passa a sentir ciúmes da criança.
 
A diretora Marion Laine conduz o melodrama sem grandes novidades, porém a qualidade dos protagonistas já torna o filme interessante, apesar de ter sido um fiasco na França.
 
A estrela francesa foi convidada para o papel graças ao pedido de Ramírez, que sonhava fazer um filme com Binoche. O casal mostra boa sintonia, com destaque para Ramírez cantando Besame Mucho. 
Como era de se imaginar, vivem um casal formado por um sulamericano e uma francesa. A decadência do relacionamento, que vai do céu ao inferno, é mostrada sem rodeios, como o título do filme.
 
 
 
De Coração Aberto tem bela fotografia de Antoine Héberlé (que esteve no Brasil para fotografar o filme Última Parada 174 - de Bruno Barreto) e conta a história sem muitas sutilezas. Muitos até podem compará-lo jocosamente a uma novela, mas se for visto sem preconceitos, traz bons momentos. Destaque para o final poético do filme.
 
 


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O VOO (Flight)

 
por Beto Besant
 
Whip Whitaker (Denzel Washington) é um piloto de aviação comercial que possui sérios problemas de dependência química. Em um dos voos, sob efeito de cocaína, realiza uma manobra inédita e consegue salvar seus passageiros, com a perda de apenas seis vidas.
Saudado como herói, sua sorte muda quando sai o resultado toxicológico e fica provado que pilotava sob efeito de cocaína e álcool. A partir daí trava uma batalha na justiça para se livrar da cadeia e outra em sua vida pessoal, para se livrar do vício.
 
O novo filme do diretor Robert Zemeckis (de grandes sucessos como Forrest Gump e a trilogia De Volta Para o Futuro) conta a história do piloto dependente químico de forma interessante, porém sem grandes novidades.

O personagem é apresentado cheirando cocaína após uma noite de sexo com uma bela mulher, este possui uma ex-mulher e um filho com quem não se relaciona bem. Em seguida, ficamos sabendo que ele é um inconsequente piloto de aviação comercial e ela a comissária de bordo. Agindo de forma jocosa, onde chega a dizer ao copiloto que "pilotar avião é como jogar videogame", mostra extrema habilidade para contornar turbulências, habilidade que lhe falta em sua vida pessoal.
Tal inconsequência é apresentada como um ônus a que o personagem terá que pagar, e de forma moralista, o filme apresenta o "inferno" que o herói terá de enfrentar, num roteiro assinado por John Gatins (Agentes de Aço) e também indicado ao Oscar por Roteiro Original.

 
O impasse do filme está em punir ou não um exímio piloto, que salvou praticamente todas as pessoas do voo, por estar drogado ao pilotar um avião com defeito. O roteiro perde a oportunidade de se aventurar pelas artimanhas das companhias aéreas em busca do lucro acima de tudo e de abafar quais quer escândalo. Mas a proposta comercial do filme não permitiria este viés polêmico.
 
O grande mérito do filme está nas atuações. Washington mostra definitivamente que é um grande ator e merecidamente está indicado ao Oscar. John Goodman, que interpreta brilhantemente o traficante Harling Mays (apesar de até sua caracterização estar estereotipada), está sensacional como de costume, trazendo as melhores piadas do filme. Kelly Reilly, que interpreta a viciada Nicole, também está bem fazendo par romântico com o protagonista enquanto tenta se livrar do vício.

A trilha sonora pop cai como uma luva na trama, principalmente em "Sympathy For The Devil", dos Rolling Stones.

O ritmo do filme é ótimo, e consegue segurar o público durante todo o filme. Apesar da nítida preocupação comercial e do final moralista-educativo, O Voo é uma boa diversão sem maiores compromissos e merece ser visto.

 

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OS MISERÁVEIS (Les Miserables)

 
por Rogério de Moraes

Primeiro, avalie o elenco formado por Hugh Jackman, Anne Hathaway, Russel Crowe, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter. Em seguida, pondere: são eles que vão preencher, sempre cantando, as duas horas e trinta e sete minutos de duração do filme.
Antes de tudo, é este o quadro que inicialmente deve ser informado ao leitor a respeito de Os Miseráveis, musical dirigido por Tom Hooper que estreia nesta sexta (01) e disputa o Oscar em oito categorias.
Na esteira dos fatos, cabe lamentar que o livro homônimo de Victor Hugo, obra máxima da literatura ocidental do século 19, seja mais conhecido como o musical de extraordinário sucesso da Broadway do que como o importante romance que é. Nada em demérito aos 25 anos de merecido sucesso do musical, mas a real grandeza de uma obra literária só se alcança lendo-a. De preferência, sem música.

É como melhor se poderá conhecer a história de Jean Valjean (Hugh Jackman), condenado a 19 anos de prisão por roubar um pão que tenta reconstruir sua vida. Ou a prostituta Fantine (Anne Hathaway), mulher que cai em desgraça por ser
mãe solteira. E o oficial de polícia Javert (Russel Crowe), implacável perseguidor de párias, não importando seu estado de fome e miséria. Assim vai-se à doce e apaixonada Cosette (Amanda Seyfried) e ao idealista e bravo Marius (Eddie Redmayne). Todos eles e mais outros presentes, fielmente ao livro, no longo musical de Hooper.


Mas nesta adaptação, é preciso dizer que o problema não está em atravessar sua longa duração, passada de cantoria em cantoria. A história que Victor Hugo escreveu há mais de 150 anos é suficientemente fascinante e comovente para segurar nossa atenção. Da mesma forma, as canções do musical, como comprovam seus 25 anos de sucesso nos palcos, são boas o bastante. Por isso, mesmo a esticada duração, quase inevitável ao se buscar fidelidade (ao livro ou à Broadway), poderia ser facilmente suportada se o
trabalho de direção fosse um pouco mais dinâmico. Pois é justamente na má direção que o filme perde sua força e seu poder de fazer as horas passarem.


Esse arrasto das horas acontece porque, ao contrário do que pode parecer num primeiro momento, essa adaptação sofre de uma cansativa pobreza de recursos visuais. Não que a direção de arte seja ruim. Ao contrário, o trabalho foi bastante bem feito, ainda que não de forma brilhante.


A pobreza de Os Miseráveis está no modo apequenado como ao longo do filme se desenha sua mise en scène*. E isso fica patente no uso exagerado de planos fechados, em especial no rosto dos atores cantando, revelando a falta de criatividade na construção da narrativa visual.


Essa opção de aproximação empobrece o cenário e empobrece também o inevitável tom operístico do musical. Ao exceder-se no modo como aproxima os atores do público, deixa-os descontextualizados na cena, o que acaba por burocratizar a narrativa e o dinamismo das cenas. Perde-se com isso a fluidez, algo indispensável para um musical, mesmo que a opção tenha sido por pouquíssimas cenas de dança e coreografia.


Quando à questão dos atores e suas canções, admitindo minha ignorância na seara da música e do canto, não soaram ruim aos ouvidos, como tampouco sobressaem-se nas interpretações. Na atuação, pode-se destacar Anne Hathaway e Hugh Jackman, mas sem grandes entusiasmos.

Figurando entre os candidatos ao Oscar de melhor filme, mas sintomaticamente, não ao de melhor direção, Os Miseráveis é um musical que se pretende grandioso (e a primeira cena do filme até faz crer que assim será), de épicas emoções. Mas fica mais na pretensão. De grandeza mesmo, o mais perto que chega é no tempo de sua duração.
-
(*) expressão francesa que, grosso modo, diz respeito à câmera em relação aos atores e ao cenário, os movimentos dentro do enquadramento ou do próprio enquadramento, a composição do plano etc.


 

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PAÍS DO DESEJO

 
por Beto Besant
 
Roberta (Maria Padilha) é uma pianista com um sério problema renal que, após desmaiar durante uma apresentação na cidade fictícia de Eldorado, é internada no hospital local. Desta forma bastante clichê, conhece o padre José (Fábio Assunção).
O sacerdote é do tipo nada conservador, o que gera diversos atritos com a Igreja, pois é favorável ao aborto em casos de estupro e ao uso de camisinha.
Além disso, sua mãe está em coma, seu irmão César (Gabriel Braga Nunes) é um médico que cuidada de Roberta e seu pai é quem mais incentiva seu senso  libertário.



O filme é um tremendo erro, onde tudo precisava ser mais trabalhado.

O elenco de estrelas de TV está muito teatral, exceto Gabriel Braga Nunes, competente como sempre. A narrativa melodramática está muito mais para telenovelas do que para cinema. A trilha sonora acompanha o estilo decadente.
A fotografia mediana, encontra em enquadramentos deprimentes, ângulos que nunca deveriam ser utilizados, como na cena em que vemos a nuca de Fábio Assunção em primeiro plano. E ligando, se é que poderia se dizer assim, um roteiro fraco, superficial e clichê que tenta abordar temas polêmicos como religião, aborto, estupro, transplante de rim, erotismo, tudo limitando-se à apenas uma "camada". Ou seja, todos os personagens são o que parecem. Das várias questões levantadas, nenhuma é aprofundada e várias são deixadas de lado no decorrer do filme. Os diálogos são pavorosos.

Há ainda uma enfermeira japonesa (Juliana Kametani) que parece ter entrado no filme apenas para fazer uma cena de nu e outra onde come óstias com ketchup, o que pretensamente era pra ser polêmico.

O diretor Paulo Caldas, dos excelentes Baile Perfumado e Deserto Feliz, desta vez errou feio, saiu da classe C (onde o cinema pernambucano se tornou mestre) para abordar a classe média de forma superficial e vazia. Certa vez reclamou que as pessoas não aceitam que um diretor pernambucano possa falar da classe média, mas considerando o resultado de País do Desejo, seria melhor que tivesse continuado a falar sobre a periferia.

 

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JOÃO E MARIA - Caçadores de Bruxas


por Rogério de Moraes
 

João e Maria: Caçadores de Bruxas chega como mais uma produção-sintoma do atual momento da indústria de cinema de Hollywood. O momento, segundo diz-se, é de crise de criatividade, e a consequência disso é uma avalanche de produções que adaptam ou repaginam histórias conhecidas. Nesta onda têm entrado HQs, contos infantis, refilmagens, continuações, prólogos e reinício de franquias de sucesso.
A verdade é que não há crise de criatividade alguma. O que ocorre é uma onda de conservadorismo de investimento. Tem-se preferido apostardinheiro em produções com possibilidade de alavancar público – pelo fato de soarem “familiar” a esse público –, ao invés de apostar em ideias originais, cujo sucesso é sempre uma incógnita. Já a questão de como somos atraídos pelo conforto do que é familiar, em oposição ao novo, fica para outra oportunidade.


 Retomando o filme, João e Maria entra no sub-sub-gênero das adaptações de contos infantis clássicos com roupagem de ação e aventura. Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, A Bela e a Fera, João e o Pé de Feijão fazem parte, entre outros, desse segmento.


O básico, todos conhecemos: João (Jeremy Renner) e Maria (Gemma Arterton), irmãos, na floresta, encontram uma casa feita de doces. Comem até se fartarem e acabam aprisionados por uma bruxa má que quer assá-los para uma farta refeição. A bruxa não enxerga mesmo muito bem, eles vão tapeando a malvada, até que escapam e matam a megera em seu próprio forno. No filme, os irmãos tornam-se celebridades e crescem aprimorando-se na arte de caçar e exterminar bruxas.

Mesmo não se levando a sério (e isso fica claro logo no início, quando João nos aconselha a nunca entrar em uma casa feita de doces [!]), chama atenção o modo como o filme não tem vergonha de ser troncho, para não dizer mal acabado. Não nos quesitos técnicos e de efeitos, que são aceitáveis. Mas no quesito roteiro e elementos internos da história, dos quais o filme faz uma grande salada.

 
Contratados para encontrar crianças desaparecidas de um vilarejo, os irmãos têm em seu arsenal armas de fogo, embora a ambientação remeta a uma era medieval. As bruxas, por sua vez, dispõem de “varinhas” e vassouras voadoras, no melhor estilo Harry Potter, mas sempre com a aparência malévola e deformada das bruxas más. Na salada, entra também figuras como um troll, um ser que parece estar em moda nos filmes de fantasia, além de personagens cuja função na trama é não ter função alguma.

Mais constrangedor, contudo, é o arranjo desarranjado do roteiro. Seus desdobramentos e enlaces são absolutamente precários, deixando transparecer um desmazelo quase ofensivo na sua elaboração. Lançado também em 3D, o conjunto dessa produção não demonstra nenhum esforço em disfarçar seu cunho unicamente comercial.
Claro que nesse aspecto, o comercial, a produção não difere de quase tudo que se faz em cinema, incluindo aí boa parte do cinema dito de arte. Afinal, quase todos querem faturar. A diferença é que em geral há um mínimo de esforço em entregar ao espectador um produto acabado, mesmo que esse acabamento seja pobre de conteúdo e qualidade.

Por isso, o que incomoda em João e Maria é a desfaçatez de nem ao menos se preocupar em fazer seu roteiro ter um mínimo de coerência interna. Os elos que desdobram as sequências do filme são quase infantis, quando não são simplesmente inexistentes.

Nas cenas de ação, o filme segue a cartilha do gênero, mas também sem grande esforço, cumprindo com o básico em lutas, perseguições e objetos vindos na direção dos óculos 3D. Para quem conseguir desligar totalmente qualquer sentido crítico ou de atenção à história, os minutos podem até passar sem sofrimento. Mas para quem não abre mão de prestar um mínimo de atenção à trama e aos personagens, ficará a clara sensação de que falta muita coisa para aquilo ser chamado de filme no sentido narrativo da palavra.
 

 

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O MESTRE (The Master)


por Beto Besant

Freddie Quell (Joaquin Phoenix) é um ex-marinheiro alcoólatra incapaz de segurar seus acessos de raiva nem seu voraz apetite sexual. Certo dia conhece Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), persuasivo líder de uma seita que acabara de criar denominada "A Causa", que utiliza da hipnose para curar traumas de infância e vidas passadas. Quell é o aprendiz rebelde, cujos métodos empregados não surtem efeito.
A relação entre ambos é complicada mas sempre há uma amizade mútua quase paternal que impede que se desliguem totalmente.
 
 
Dirigido por Paul Thomas Anderson (de Sangue Negro e Magnólia), o filme vem acumulando elogios pela maior parte da crítica, que chega a chamá-lo de "um dos melhores filmes de todos os tempos". Porém, minha visão é bem mais comedida. O elenco é ótimo - principalmente Phoenix e Hoffman, mas isso já era de se esperar. Inclusive o segundo está indicado ao Oscar de melhor ator e o primeiro de melhor ator coadjuvante - assim como Amy Adams (que interpreta a mulher do líder religioso).
 
O Mestre é muito bem dirigido, escrito e interpretado, bem fotografado e com bela trilha sonora, porém com uma montagem lenta e longa, com suas duas horas e quarenta minutos.
 
Tenho a sensação de que conforme a "poeira" for baixando, os elogios efusivos ao filme darão mais vasão às reservas que o filme tem.

 

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AMOR (Amour)


 

por Rogério de Moraes

Mesmo quando fala da condição delicada do amor, Michael Haneke o faz pelo viés do sofrimento. Acusado algumas vezes de sádico ao impor uma espécie de tortura do espectador em seus filmes, o diretor austríaco exige sempre de seu público a vontade necessária para suportar a angústia. Seja essa angústia de cunho claramente violento, como em Violência Gratuita (1997), seja de terror psicológico, como em Caché (2005), seja na exploração na natureza de um mal atávico em A Fita Branca (2009).

Em Amor, Haneke lança seu olhar para o envelhecimento ao retratar a
vida de um casal de idosos. Aspectos como compaixão, sofrimento, solidão e eutanásia são as linhas mestras que conduzem esse drama.
Indicado duplamente a Oscar de melhor filme (concorre ao mesmo tempo ao prêmio de melhor filme e de melhor filme estrangeiro), Amor retrata um processo degenerativo na vida do casal, quando um deles adoece irremediavelmente.

Na estrutura narrativa, o diretor concentra-se na intimidade do casal. Apresenta elipses entre um agravamento e outro da doença, mantendo sempre tesa a linha do drama. Dentro do apartamento onde vive o casal, cresce uma tensão aflitiva, um tipo de aprisionamento por sobre outro aprisionamento. Ali, o espaço da convivência de uma vida em comum e ali também o espaço de uma relação afetuosa que se desdobra pelo cuidado, mas também pela verdade do transtorno de quem sofre e de quem vê sofrer.


Para dar estofo dramático a essa profunda jornada de amor e solidão, Haneke coloca em cena o peso de três nomes sem os quais não se conta a história do cinema francês. Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva e Isabelle Huppert são, respectivamente, marido, esposa e filha. Esta última com aparições pontuais, que mais enfatizam a solidão do casal do que a possibilidade de compartilhamento do fardo dessa solidão. Mas são as atuações de Trintignant e Riva que dão ao filme sua força de assombro dolorido e a sensibilidade crua típica do cinema de Haneke.





Um cinema que tem na sua veia a polêmica, aqui representada pela discussão da eutanásia. Mas como a obviedade é fator escasso na obra do diretor, essa discussão se apresenta pela surpresa, construída de forma delicada e sensível, mas sempre com traços de uma brutalidade humana, que mesmo revestida de amor, não se torna menos brutal para quem assiste, nem para quem executa.


Para dimensionar e multifacetar essa delicada brutalidade, constrói-se um drama do qual também somos vítimas e testemunhas do sofrimento. Habita aí o aspecto recorrente do cinema de Haneke, que é o de nos fazer passar pelo filme não apenas como espectadores passivos, mas como cúmplices da violência e da inquietude. Sempre com uma perspectiva que nos desconcerta e aflige. Disso não escapamos em Amor, que ao construir suas cenas transmite com dolorosa verdade a intensidade de cada momento.


Amor é filme que fala do fim da vida, da dignidade que merecemos ao chegar perto desse fim e que nem sempre nos é reservada. Seu sentimento de mundo é a solidão inevitável da velhice, é um aprisionamento do corpo ante o descompasso de querer liberdade e de querer libertar.


Por isso o amor de Haneke não é idílico, como também não é cínico. É um amor feito de verdade, com sentimentos que vão além da beleza simples e traduzem a complexidade do que é real e humano. Mais do que sobre o amor, é um filme sobre a liberdade e sobre o que cabe nessa palavra quando vista pelo olhar do tempo que se estende mais do que a vida e o sentimento suportam.
 
 

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SACRIFÍCIO (Sacrifice)



por Beto Besant

Após longos anos de domínio do clã Zhao, Tu'an Gu (Xueqi Wang) consegue tomar o poder e decide eliminar todo o clã rival para que estes não tenham a mínima chance de ressurgirem. Para não restar dúvida, elimina todas as crianças recém nascidas.
Um médico Cheng Ying (You Ge) tem seu próprio filho e mulher mortos mas consegue esconder Cheng Bo, uma das crianças do clã e a cria como seu filho para que  vingue todo o clã.
A criança cresce tendo seu maior rival como padrinho.


Sacrifício é exatamente o que esperamos de um filme chinês da atual e excelente safra de filmes. Tem as dimensões do país em todos os sentidos: grande elenco, centenas de figurantes, locações gigantescas, direção de arte luxuosa e grandes lutas coreografadas para contar mais um épico.

Dirigido por Chen Kaige (do sensacional Adeus Minha Concubina), o filme não tem o mesmo brilho de sua obra de estreia, mas ainda assim é um grande exemplo da atual safra cinematográfica chinesa.

Para nós ocidentais é meio confuso absorver uma trama onde rostos nos parecem similares e nomes impronunciáveis. Porém, a belíssima produção nos convence a prestarmos atenção até que nos sintamos familiarizados com história. Por se tratar de uma trama oriental, não deixa de ter um ritmo peculiar, num tempo diferente ao que estamos acostumados, mas isso não impede que se assista a essa belíssima produção chinesa.





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JACK REACHER - O Último Tiro (Jack Reacher)



por Beto Besant

Um franco-atirador é preso após balear 5 pessoas aleatoriamente. Em seu depoimento, apenas pede que encontrem o ex-militar que dá nome ao filme e é interpretado pelo astro Tom Cruise.
Hellen (Rosamund Pike) é a advogada de defesa do assassino, o que considera caso encerrado. Reacher é o típico militar condecorado e com todas as habilidades possíveis a uma pessoa. Aparece de repente e passa a investigar o caso junto com a advogada, utilizando de métodos próprios.



Como já era de se esperar, o filme possui todos os clichês possíveis, como tiroteio, perseguições, sedução, lutas etc. Mas isso não impede o diretor e roteirista Christopher McQuarrie de fazer um bom filme, que apesar de não sair do previsível, consegue segurar a atenção do espectador até durante todo o filme.

Cruise, apesar de seus cinquenta anos, "segura" bem o papel, que lhe exige bastante disposição física.
Além de Cruise, o filme tem o sempre competente Robert Duvall e o cineasta Werner Herzog. 

Filme indicado para quem quer ver uma boa diversão descomprometida e para fãs do gênero.



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A NEGOCIAÇÃO (Arbitrage)

 
 
por Beto Besant
 
Robert Miller (Richard Gere) é um milionário empresário que vive uma crise nos negócios e precisa urgentemente vender sua empresa para quitar as dívidas.
É casado com Ellen (Susan Sarandon), com quem tem uma filha de nome Brooke (Brit  Marling), contadora da empresa. Mantém um caso extraconjugal com uma artista plástica interpretada pela bela modelo Laetitia Casta.
 
Antes da negociação ser concretizada, Miller envolve-se num acidente que pode comprometer a venda e consequência toda sua vida. Para resolver o problema, utiliza-se de métodos questionáveis, assim como os métodos de investigação do policial Michael Bryer (Tim Roth).


 
O filme trás Gere numa atuação irretocável, como há muito não fazia. O ator consegue dar veracidade a um personagem que ama sua família mas mantém uma amante, que é honesto mas utiliza-se de métodos questionáveis para conduzir seus negócios, que não prejudica ninguém mas está sempre no limite de fazê-lo, inclusive com sua própria família.
 
O roteiro e direção é do estreante em longa de ficção Nicholas Jarecki, que apresenta um belíssimo roteiro e direção competente. O maior mérito do filme é não ser maniqueísta. Desde a forma com que o protagonista administra seus negócios, como sua mulher o confronta, os métodos de investigação usados pelo policial até a decisão de extrema honestidade de sua filha mas que provoca reflexões, por irem contra os interesses da própria família.

Com um excelente elenco, o filme de certa forma desperdiça o talento de Sarandon em pequena participação, porém fundamental para o desfecho da história.

O único ator que está caricato é Tim Roth, que nada mais faz do que repetir suas "caras e bocas" da série Lie to Me.

Outra grande virtude de A Negociação é a montagem. Apesar de abordar um tema complexo, tanto pelo lado empresarial quanto pelo pessoal, mantém um ótimo ritmo de acontecimentos, prendendo a atenção do espectador e não dando a sensação de filme lento. Ao contrári do que acontece na maioria dos filmes do gênero.
 
O filme apresenta questões éticas e morais extremamente delicadas e complexas, e só isso já seria motivo suficiente para assistir a esse belo filme.
 
 
 
 

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O HOBBIT - UMA JORNADA INESPERADA (The Hobbit)

 
 
por Márcio Escudeiro
 
E mais uma vez, após quase 9 anos, após o ultimo episódio de O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei ter sido exibido nas telas de cinemas, estamos novamente no mundo da Terra-média, nas mãos de Peter Jackson, agora com outros personagens, e em mais uma aventura do mundo criado por Tolkien em, O Hobbit - Uma Jornada Inesperada.

O filme conta a trajetória de Bilbo Bolseiro (Martin Freeman), que enfrenta uma jornada épica para retomar o Reino de Erebor, terra dos anões que foi conquistada há muito tempo pelo dragão Smaug. Levado à empreitada pelo mago Gandalf, o Cinzento (Ian McKellen), Bilbo encontra-se junto a um grupo de treze anões liderados pelo lendário guerreiro Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage). Essa aventura atravessará terras traiçoeiras repletas de Goblins e Orcs, mortíferos Wargs e Aranhas Gigantes, Transmorfos e Magos.
 
Embora o objetivo aponte para o Leste e ao árido da Montanha Solitária, eles devem escapar primeiro dos túneis dos Goblins, onde Bilbo encontra a criatura que vai mudar sua vida para sempre... Gollum (Andy Serkis).
 

Peter Jackson nos leva novamente ao mundo que parece tão familiar e tão comum, apresentados anteriormente no Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. E tudo se passa na mesma época, a comemoração do aniversário de Bilbo Bolseiro, onde ele mesmo nos contará outra história, que precede a Sociedade do Anel em 60 Anos.

O filme é baseado no livro de autoria de J.R.R.Tolkien, O Hobbit, tendo a adaptação do roteiro feita pelo próprio Peter Jackson, além de: Fran Walsh, Guillermo Del Toro e Phillippa Boyens, com a difícil missão de conseguir atingir o sucesso que foi a trilogia de Senhor dos Anéis.

Mesmo com algumas falhas visíveis e alguns remendos para tornar a história do livro, já infantilizada, mais interessante (tendo em vista que os filmes anteriores do Senhor dos Anéis tinham um enfoque mais denso, sombrio), a história deste é basicamente uma aventura sem o mesmo peso dramático da trilogia anterior.
Mas o grande diferencial está na ótica que Peter Jackson consegue dar ao filme. Ele consegue nos fazer sentir que estamos em uma revisita à Terra-Média, em uma mista sensação de que nunca nos esquecemos daquele mundo.
Essa revisita só poderia ser capaz graças à trilha-sonora do já conhecido Howard Shore (trilogia Senhor dos Aneis), que dão o teor musical necessário e de extrema importância, partindo da bela canção cantada pelos 13 anões na casa de Bilbo Bolseiro.


Outro ponto que gerou grande dúvida foi se esse novo elenco seria convincente, e mais uma vez acertaram na escolha. Exceto alguns casos em que anões se tornam meros coadjuvantes, chegando ao ponto de certas características serem deixadas de lado.
 
No mais, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada é uma grande aventura, com inúmeros detalhes, efeitos bem trabalhados, que se deixarão notar bem mais em uma versão 3D e é o grande filme deste final de ano, que só acabará dando uma maior vontade nas sequencias que estão por vir.

 

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 por Rogério de Moraes
 
Livros de história podem nos ensinar sobre os fatos de uma época. Porém, tornam-se falhos quando se trata de transmitir o espírito de um tempo. Esse “sentimento de uma época” é uma percepção muito mais ligada ao cotidiano do detalhe do que aos grandes acontecimentos. Porque saber das coisas é muito diferente de sentir as coisas.
 
Pois é pelo viés do “sentimento das coisas” que se monta Infância Clandestina, filme argentino dirigido por Benjamín Ávila e que foi o escolhido pelo país para tentar uma vaga entre os indicados ao Oscar de filme estrangeiro.
 
Baseado em fatos reais, o filme traduz pelo sentimento uma época sombria da história argentina: a ditadura militar – um câncer político que se espalhou por países latino-americanos na segunda metade do século 20.
 
Contudo, mais que político, Infância Clandestina é um filme sobre o amor e sobre a perda da inocência. Porque será dentro do encanto infantil, da descoberta do sentimento em meio a uma vida conturbada, que se revelará a aspereza de um tempo.
 
A figura em torno da qual se desdobrará tais descobertas é o jovem Juan (Teo Gutiérrez Romero), filho de pais ativistas políticos de esquerda. A família retorna ao país clandestinamente depois de um tempo exilados. Planejam ações armadas contra o governo militar. Juan, de não mais que 12 anos, acompanha os pais. Deve usar nome e documentos falsos. Chama-se agora Ernesto e deve fingir ser de Córdoba.
 
É entre esse sentimento de dever clandestino e as descobertas naturais da infância que o jovem Juan se equilibra. Ele entende seu dever sem questionar, inspirado pelos pais e pela figura do tio, também um revolucionário.
 
Ao mesmo tempo, Juan passará pela experiência do primeiro amor, sentimento que vai aflorar no convívio escolar, através da figura de María (Violeta Palukas). Entra aí a delicadeza do filme ao construir essa relação de inocência típica da idade, com frios na barriga, hesitações e o descobrimento de desejos antes desconhecidos. Na condução dessa narrativa, o diretor equilibra todos os tons de forma suave, mas sem roubar da atmosfera a intensidade que ela exige por ser também retrato de um tempo cheio de perigos. A inteligência do filme reside na forma como este matiza a vida de Juan, como transmite uma estranha naturalidade em seu cotidiano incomum.
 
 
 
Tão jovem, ter a firmeza de sustentar uma identidade falsa. Mas também manter com os pais a mais natural das relações de qualquer infância. Neste cotidiano de aparência comum, o convívio com armas, reuniões em que as pessoas chegam vendadas, planos de fuga no caso de serem descobertos.
 
Todo um clima de incerteza, toda a tensão da guerrilha presentes nesta infância. Uma infância que tem ainda de lidar com a descoberta do amor e toda inocência do sentimento que surge nesta idade. Através disso, o filme nos envolve com o clima de uma infância sob o clima de um tempo. Está ali o sentimento de uma época, mas não transmitido pela ótica de adultos, cujas memórias serão sempre secas. Mas pela ótica da iniciação, filtrada pelo sentimento da infância, cuja tradução manterá sempre um pouco de ingenuidade adocicada. Porém, no caso de Juan, guardará também a secura e o amargor de um tempo duro, que o marcará pela violência e pela perda mais dolorosa.
 
 

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OS PENETRAS



por Beto Besant

Marco Polo (Marcelo Adnet) é o autêntico "bon vivant", típico malandro carioca. Vive de pequenos "bicos" e pequenos golpes para se sustentar, sempre procurando boa vida, com belas mulheres e festas.

Por acaso, acaba salvando a vida de Beto (Eduardo Sterblitch), e percebe nele a possibilidade de ganhar dinheiro fácil com o ingênuo rapaz do interior que tenta reconciliar-se com sua namorada Laura (Mariana Ximenes).
Obviamente, Marco Polo fica interessado pela bela moça e tudo sai de seu controle.

Logo os dois rapazes passam a frequentar as badaladas festas cariocas e mudam sua percepção das coisas. Marco Polo passa a ficar amigo de Beto e sensibilizar-se com sua história, por outro lado, Beto começa a deixar de lado sua inocência e perceber a malícia do Rio de Janeiro.


Dirigido pelo renomado e experiente Andrucha Waddington (Casa de Areia, Eu, Tu, Eles e Lope), Os Penetras parece acreditar que para se fazer uma boa comédia basta ter dois protagonistas talentosos e um elenco coadjuvante renomado, como: Luís Gustavo, Andréa Beltrão, Stepan Nercessian e Susana Vieira. Claro que tem uma boa produção (de três milhões de reais), fotografia e direção (afinal de contas Waddington é talentoso e experiente), mas de nada adianta isso se o resultado não é engraçado.

Tudo no filme é previsível e sem graça. Falta liberdade aos atores para improvisarem e mostrarem "a que vieram". De que adianta fazer uma comédia onde tudo é "certinho demais" se o resultado não condiz com o gênero?


Uma pena, um filme de um cineasta com um trabalho tão sólido ser tão superficial e sem graça. Apesar disso, deve atrair bom público (devido ao elenco e campanha publicitária) e tirar boas risadas do público médio, que sai de casa disposto a rir independentemente do que veja na tela.


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