Tecnologia do Blogger.
RSS

A CULPA É DAS ESTRELAS (The fault in our stars)


por Tiago Paes de Lira

Provavelmente você já viu uma centena de filmes românticos, um mais água que açúcar que o outro. E se você for homem, é mais provável ainda que o esquema “garoto conhece garota/garoto perde garota/garoto reconquista garota” não seja o seu estilo. Mas eis que A Culpa é das Estrelas vem para jogar para cima, pelo menos ligeiramente, esses conceitos. A história doce, romântica e triste é um paralelo da a vida em si. Como diz a protagonista, existe um pequeno infinito entre dias, mesmo que esses sejam contados. Surpreendentemente emocionante, é um filme para casais sim, mas com uma carga emocional que fará muita gente grande – inclusive homens – chorar.

Hazel Grace Lancaster (Shailene Woodley) é uma adolescente diagnosticada com um tipo de câncer terminal. Incentivada pela mãe (Laura Dern) ela começa a frequentar um grupo de apoio, onde ela conhece Augustus “Gus” Waters (Ansel Elgort). A relação dos dois começa a crescer, mesmo que Hazel se considere uma granada prestes a explodir. Apaixonado e sabendo do estado dela, Gus faz de tudo para realizar o sonho da protagonista: conhecer Peter van Houten (Willen Dafoe), seu autor favorito. E provam que mesmo uma relação fadada ao fim pode ter contornos de uma história de amor de anos.

Quem me acompanha já sabe da minha ojeriza por narrações off. Pois bem, esse filme tem bastante, mas, em muito tempo, foram bem usadas. Hazel começa a contar sua história já marcando que não será como uma música romântica de Peter Gabriel. Vamos ouvindo a sua voz durante os primeiros minutos de projeção, sobre sua vida e a relação com os pais. Porém, essa narração para no momento que ela conhece Gus. Poético isso. Naquele momento, a protagonista encontrou alguém que a completava, e a necessidade de falar de si mesma acabou. A partir do fim do primeiro ato, o que importa é a história dos dois juntos, e ninguém precisa falar sobre isso. É apenas preciso ver.

Sem muitas delongas, a história é exclusiva de Hazel e Gus. Com exceção do amigo Isaac (Nat Wolff) mesmo as pessoas mais próximas dos dois não são chamadas pelos nomes. Tanto os pais dele quanto dela são apenas Sr e Sra Lancaster e Sr e Sra Waters. O que não quer dizer que eles são descartáveis. A relação da Sra Lancaster (Dern) com a filha é muito doce. E junto do Sr Lancaster (Sam Trammel), os três tem uma relação bem interessante. Apesar da doença terminal de Hazel, eles não podam a filha exatamente por saber que a jovem tem pouco de vida. Sim, a mãe se preocupa se a filha está isolada demais, e o playground que ainda funciona no quintal dos Lancasters remete ao passado, mas a mãe é sempre uma incentivadora da filha, ao invés de superprotetora, como vemos na cena em que ela presenteia a filha com um vestido para o encontro romântico com Gus. É quase uma relação entre ídolo e fã.

O romance do filme é desviado por alguns momentos de comédia às vezes politicamente incorretos. Nos pegamos rindo porque um cego não consegue acertar um alvo. Também acontece quando vemos que Gus é um desastre sobre rodas, mas é fácil de se esquecer por um momento que isso pode ser porque ele tem uma perna mecânica e não sabe controlar direito um carro. Créditos ao diretor por nos colocar numa situação dessas.

E há os momentos dramáticos que pode trazer algumas lágrimas. Você se apega fácil ao casal e, como Gus aponta, essa é a história de Hazel e não do câncer dela. Por isso que as partes tristes são tão marcantes, como a crise respiratória da protagonista. Existe um certo conforto porque é Hazel que conta a história para nós – o que indica que ela estaria viva no fim do filme – mas subitamente nos lembramos que o câncer dela é terminal e que, mesmo nesse mundo fictício, a vontade de que os dois jovens fiquem juntos é verdadeira.

Existe sim o conflito clássico na narrativa. E ele é bem artificial e desnecessário, e serve só para ser conflito, que é resolvido rapidamente. Mas a sensação é que foi só para ganhar alguns minutos de projeção. Apesar de não prejudicar a experiência, há um certo incômodo pelo uso desse artifício.

Feliz também no design de produção e figurino, podemos notar que o diretor Josh Boone eficientemente trocou as narrações do começo por coisas mais visuais. Podemos citar algumas mais simples – como ospop-ups que pulam na tela a cada vez que Hazel e Gus trocam mensagens pelo celular – ou outras mais sutis no figurino – Hazel se veste várias vezes de roxo (sinal ligado à morte), ou quando em Amsterdã os dois compartilham tons de azul (segurança) e no ambiente – para reforçar que Hazel é uma mulher forte, a vemos assistir na TV dois personagens com essa característica: Buffy (de Buffy – A Caça Vampiros) e Ripley (da Quadrilogia Alien), além de um pôster com uma figura de lâmpada que os dois compartilham. Esses pequenos pedaços montam uma relação muito rica, mas que teve pouco tempo para florescer.

A Culpa é das Estrelas lida com o amor e esquecimento. Talvez as duas coisas mais difíceis de se lidar no mundo. A história romântica à primeira vista funcional apenas para o público feminino tem tudo para agradar mais gente. Mesmo num filme desses, o primeiro “eu te amo” aparece somente no 3º ato, quebrando alguns paradigmas do estilo. E pode não parecer à primeira vista, mas é um filme inteligente demais, abordando metáforas, discussões sobre vida e morte e o amor. Vinícius de Moraes disse que amor é chama, e que é imortal enquanto dure. Hazel coloca em outras palavras, dessa vez num cunho matemático – onde ela tenta racionalizar o que sente – o que se transforma num belo discurso. Ao fim, percebemos melhor porque o diretor focou a frase de Anne Frank “Pense em toda a beleza que ainda resta em torno de você, e seja feliz”: pegue essa mensagem, a de Hazel e por que não a de Vinícius e se emocione, porque é justo. Ok?


  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

TIM LOPES - Histórias de Arcanjo


por Beto Besant

A divulgação do desaparecimento do repórter investigativo Tim Lopes em 2 de junho de 20002, que pouco tempo depois teve sua morte constatada, instantaneamente tornou-se comoção nacional. Parecia inacreditável que os traficantes da Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro tivessem a ousadia de executar um jornalista da primeira emissora de TV do país, e de forma abominável: o micro-ondas.
É assim que é chamada a morte onde a vítima é colocada entre diversos pneus onde é ateado fogo - muitas vezes com a pessoa ainda viva.

A comoção foi ainda maior quando se tomou conhecimento de quem era o jornalista: uma pessoa de origem simples e que sempre buscou revelar os problemas sociais em suas matérias investigativas.
O caso trágico - porém fascinante, é um "prato cheio" para os cineastas. Na história do cinema brasileiro diversos de comoção nacional transformaram-se em filmes de sucesso, desde O Caso dos Irmãos Naves (Luís Sérgio Person, 1967) até Carandiru (Hector Babenco, 2003).


A vida do jornalista poderia ter sido encenada, mas aqui a opção foi pelo documentário. O filme, dirigido por Guilherme Azevedo, foi escrito e conduzido por Bruno Quintella - filho de Tim Lopes. Por esse motivo, sua condução é muito afetiva, contando curiosidades como surgiu a origem do apelido e como iniciou na profissão, além das matérias mais importantes.

Os momentos onde a mãe e irmãos do jornalista falam sobre o relacionamento entre eles são carregados de dramaticidade, assim como o momento onde a viúva de Chico Mendes conta sobre  amizade que tinham.

Outro momento de muita emoção é quando Bruno vai pela primeira vez até o local onde seu pai foi executado. Algo como um exorcismo de seus medos e "fantasmas".

A montagem comete um equívoco no começo do filme. Mostra imagens erais do jornalista indo com a câmera escondida a uma clínica de reabilitação de dependentes químicos, em seguida combina com o motorista o encontro em alguns minutos. O problema é que as duas imagens não são da mesma reportagem, e esta seria a última vez que Tim Lopes seria visto. Quando percebemos do que se tratavam tais imagens ficamos na expectativa de que haveria uma continuação ou mesmo a repetição, mas isto não acontece.

Se o filme fosse conduzido por uma pessoa distante do retratado, provavelmente buscaria ouvir a outra parte, colhendo o depoimento dos assassinos, liderados pelo traficante Elias Maluco, mas devido à condução de seu filho, provavelmente sentiu que não teria "sangue frio" suficiente para chegar a este ponto.

Tim Lopes - Histórias de Arcanjo é um filme importante de ser visto, tanto para conhecer sua história quanto para acompanhar a dificuldade natural de seu filho em superar o assunto.
É daqueles filmes que a gente assiste com o "peito apertado". Impossível não se colocar no lugar de Bruno Quintella e refletir sobre qual seria nossa reação caso o fato acontecesse conosco.


  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

UMA LONGA QUEDA (A Long Way Down)


por Tiago Paes de Lira

Nem todos os filmes podem ser resumidos em uma palavra. O que não é necessariamente bom, tampouco ruim. Para Uma Longa Queda, a palavra é “aconchegante”. Essa comédia acerta em mostrar que todos tem problemas, e uns podem ser mais perturbados que outros, mesmo face ao suicídio. Pode ser um filme que mudará a sua vida, ou só para assistir em um reprise. É uma produção doce, engraçada e que trará reações diferentes, e sem consenso algum.

Em uma noite de passagem de ano, Martin (Pierce Brosnan) resolve se suicidar. Quando está pronto para se atirar do alto de um prédio, Maureen (Toni Collette) aparece no mesmo lugar para fazer a mesma coisa. Em meio à discussões, juntam-se à eles Jess (Imogen Poots) e J.J. (Aaron Paul) com a mesma intenção. Uma série de eventos os fazem postergar o ato, e os quatro acabam virando alvo da mídia sensacionalista. Dispostos a virar o jogo, eles se unem para tentar acabar com assédio e, quem sabe, ganhar um pouco de dinheiro com isso.

A maior qualidade do diretor é nos fazer rir do assunto tão sério. O suicídio é uma patologia da nossa sociedade, e que deveria ser visto de um prisma diferente. Bem da verdade, nos sentimos um pouco culpados de rir de Martin enquanto está se equilibrando na escada, ou da suadiscussão com Maureen sobre o assunto. Aquele é um momento que, na teoria, é tenebroso. É nesse humor sombrio que começamos a gostar dos personagens. Mesmo de Jess, que tentava se atirar com convicção. Ali se cria o vínculo entre ela e Martin – tanto um quanto o outro estavam decididos à tirar a própria vida, com Martin carregando uma escada por vários lances de escada e Jess sair correndo em direção à beirada –, que se espalhará entre os quatro. E vendo o desespero da jovem, Martin toma as dores dela como um pai. Ainda que perceba isso tardiamente, quando vai buscá-la em uma festa rave. Relutantemente, ele a salva e ali se forma uma estranha ligação/família. Mesmo que seja pouco provável que quatro pessoas queiram se jogar do mesmo lugar ao mesmo tempo, mas são concessões que damos à comédia.

O diretor decide por contar o resto da história em quatro pontos de vista diferentes, acompanhados por narrações off, que no episódio de Martin são irritantes, aparentemente intermináveis e óbvias no estilo “eu não imaginava que iria encontrar aqueles três de novo. E então…”. Quando centrada nos outros, as narrações diminuem e funcionam melhor. Ainda assim é muito falatório.

A divisão em capítulos serve para conhecermos melhor os personagens e nos importarmos com eles. Cada um tem a sua pequena tragédia, e mesmo no caso de Martin, que traiu a esposa e foi preso – injustamente, diga-se de passagem – o diretor procura não julgar. Assim como Jess, que tem uma personalidade que varia entre o irritante e o doce; Maureen, que é uma mulher com um grande fardo – que ela não vê desse jeito – e J.J., talvez o mais perdido de todos.

E ali vemos os universos de cada um. Jess é fechada: reparem na cena em que enquanto caminha fica olhando os próprios pés, e para a bagunça que é seu quarto, assim como a sua vida – interessante a cena em que ela vai para o lugar onde a irmã foi sequestra e, ao fundo, o diretor mostra um pub chamado White Rabbit (algo vindo de “Alice no País das Maravilhas”). Maureen toma praticamente todo seu tempo à cuidar do filho com paralisia cerebral, e por isso tem medo de se distanciar dele – ela tinha ideia de que seu suicido daria conforto financeiro ao rapaz – e assiste à comédias na TV, para dar um pouco mais de graça à sua vida. J.J. é o que leva o momento com mais tranquilidade, apesar de ser, aparentemente, o que deveria estar mais desesperado – mas a mentira é como um câncer, vai consumindo. A narração de Martin é a mais desinteressante. Ele fala tanto das filhas e da ex-esposa, mas elas não participam da narrativa – não até o fim, pelo menos.

Há grandes acertos em Uma Longa Queda. O toque de humor britânico pode ser um desafio, mas as risadas vem fácil, assim como nos conectarmos à essas pessoas, mesmo que a ideia de suicídio estejalonge de nossas mentes. Suas dificuldades podem ser as mesmas, parecidas, ou nada similares com as deles. Porém, quando Maureen se surpreende ao perceber que amizades podem ser formadas depois de tanto tempo, o diretor e roteirista dizem à que vieram. Perto do desfecho, Martin complementa essa percepção ao mostrar a J.J. que essa família – por assim dizer – pode não ser a ideal, mas é o melhor que eles podem ser. Isto deveria ser o suficiente: laços se criam e, sendo toda a vida importante, vale a pena nos segurarmos, nem que seja nesse fiapo.


  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

SETENTA


por Beto Besant

Em tempos de Copa do Mundo, quando nos deparamos com um filme intitulado Setenta, logo pensamos na lendária taça vencida por Pelé e companhia no auge da ditadura militar brasileira. Porém, o título faz referência aos setenta presos políticos libertos em troca do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher - sequestrado pelo VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) no ano de 1970.

Todos foram levados num avião até o Chile socialista de Salvador Allende, porém logo tiveram que fugir, após a invasão americana e o golpe militar liderado por Pinochet.



Dirigido pela estreante e ex-presa política Emília Silveira, o documentário segue uma narrativa tradicional, mesclando entrevistas com fotos de época e filmes que abordam o tema. A virtude neste caso foi a opção da cineasta em se concentrar nas histórias pessoas dos libertos na ação. É interessante ver que hoje, já na terceira idade, eles mesmos se surpreendem de como eram engajados e destemidos, e como não tinham noção dos riscos que corriam.

Momentos dramáticos - como o depoimento do homem se refugiou com sua mulher na Alemanha após a prisão, mas não suportando os traumas sofridos, atirando-se na frente de um trem, são intercalados com momentos divertidos, como aquele em que o entrevistado ri ao lembrar-se da péssima qualidade dos documentos falsificados, e mesmo assim conseguiam fazer viagens internacionais com eles.

Setenta é mais um ângulo de fatos sangrentos de nossa história e que podem gerar mais uma infinidade de filmes. Conta a história de pessoas - ao contrário dos jogadores de futebol, que literalmente lutaram pelo país e saíram derrotadas.



  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO (X-Men: days of future past)



por Tiago Paes de Lira

Com Hugh Jackman, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Halle Berry, Anna Paquin, Ellen Page, Nicholas Hoult, Peter Dinklage, Ian McKellen e Patrick Stewart. Argumento de Simon Kinberg, Matthew Vaughn e Jane Goldman. Roteirizado por Simon Kinberg, baseado na história de Chris Claremont e John Byrne. Dirigido por Brian Synger (Jack – O Caçador de Gigantes).

O maior problema de uma franquia – e principalmente uma da Marvel que tem tanta histórias pregressas e tantos fãs para agradar – é a repetição: temas, atores, protagonistas, antagonistas até mesmo vilões. Percebendo isso, Kinberg e um renovado Singer apresentam um filme de ação empolgante, misturando temas de ficção científica/viagem no tempo e abrem um leque de vastas possibilidades. X-Men: Dias de um Futuro Esquecido é um filme para se ver mais de uma vez, e é a melhor adaptação do universo X nos cinemas.

Num futuro próximo, tanto a raça mutante quanto a humana estão à beira da extinção. Um grupo de mutantes liderados pelo Professor Charles Xavier (Stewart) e Erik Lehnsherr/Magneto (McKellen) são a última resistência contra as temidas Sentinelas. Existe uma esperança nos poderes de Kitty Pride (Page), que pode enviar a consciência de outra pessoa através do tempo. Por causa de suas habilidades de cura, Wolverine (Jackman) é o escolhido para a missão de convencer as versões mais jovens de Xavier (McAvoy) e Erik (Fassbender) a se unirem e impedir que Mística (Lawrence) assassine Bolivar Trask (Dinklage), o que desencadeara a guerra contra os mutantes no futuro.

A estrutura da história é baseada em flashbacks, o que é pertinente para o tema. Suas variadas linhas de tempo são tanto continuações de X-Men 3: O Confronto Final (The X-Men: Last Stand, 2006, Dir Brett Ratner) e X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011, Dir Matthew Vaughn), além de ter relação com a cena extra de Wolverine: Imortal (The Wolverine, 2013, Dir James Mangold). E uma das qualidades do filme é unir esse universo que já é bem grande, até mesmo o malfadado primeiro filme solo de Logan.

O futuro mostrado é um inverno constante, um novo holocausto – esse nuclear– onde os prisioneiros são marcados na face à fogo com a letra M. A morte vem realmente do alto, com os Sentinelas chegando em naves que tem o formato de caixões de cabeça pra baixo. Ainda que esconda o sangue, as cenas de violência são pesadas, com muitos desmembramentos e decapitações promovidos pelas máquinas. Porém, elas acontecem na penumbra ou enquanto os poderes estão ativados. Por exemplo, Colossus tem membros arrancados enquanto em sua forma metálica, o que diminuí a violência gráfica. Mas só um pouco. Quando Wolverine enfrenta alguns bandidos já em 1973, suas garras de osso não são mostradas ensanguentadas.

Existe a possibilidade de os fãs mais ardorosos da Marvel reclamarem ser Wolverine, e não Kitty que viaja no tempo, como é nos quadrinhos. Há dois bons motivos para isso. Um: Marketing. Hugh Jackman é o nome mais conhecido do elenco (veja que os pôsteres internacionais mencionam apenas o nome dele). Dois: Plausibilidade. A viagem pode causar danos cerebrais se o viajante for muito longe e por muito tempo. Por isso, quem melhor que alguém com um poder de cura para resolver o assunto? E, como sempre, esta é uma crítica do filme e não da fonte original. O que importa é que dentro do universo adaptado funciona.

De volta à 1973, Logan age como um espectador – como nós da audiência – e com ligeira surpresa aos fatos que está revivendo. De vez em quando, o mutante esquece que naquela época seus ossos ainda não estavam revestidos de adamantium, e fica com uma cara de decepção ao constatar o fato, que não impede de manter o espírito desafiador e um tanto piadista. Quando ele encontra o jovem Hank McCoy (Hoult) na Escola de Xavier, há uma provocação de Logan para ver o verdadeiro Fera. Vai render boas risadas que não são soltas. Elas servem para reforçar a personalidade de Xavier dessa época. Apesar de estar andando, ele está perdido, constantemente com um copo de whisky na mão. Por passar nos anos 1970, há um paralelo com o mundo das drogas, e a palavra “viciado” está em todo lugar, apesar dela não ser usada. Há uma cena bem marcante, onde Charles chega a lamber os lábios quando vê uma seringa.

A Mansão X está tão caída quanto seu dono, com janelas fechadas, poeira por todos os cantos e a dor de Xavier representada em dois totens: um para Raven/Mística – que ganha um memorial com velas, como os que fazem vigília para seus entes queridos desaparecidos – e um tabuleiro de xadrez com um jogo não finalizado, um símbolo usado entre ele e Erik desde o primeiro filme X.

Há uma preocupação clara em deixar tudo equilibrado. Se há o futuro sombrio, existe um passado mais colorido – na fotografia de Newton Thomas Sigel, que trabalhou em filmes como Drive (Drive, 2011) – e com algum blur. Onde existe a seriedade de acabar com apocalipse, há no outro extremo Pietro (Peters) que, por ser um adolescente, não vê o mundo com muita seriedade. A cena em que ele lida com uma dúzia de homens armados que cercam Logan, Xavier e Erik é de um extremo bom gosto, e podemos ver por um momento como é ser alguém que pode se deslocar à velocidade do som (ao som de Time in a Bootle). É um alívio cômico, e a frase “minha mãe conheceu um cara que fazia isso” é uma dica que provavelmente só fãs conhecem. A opção de Singer de fazer que os efeitos da movimentação dele comecem sutis faz todo o sentido: para o espectador comum, é assim que vemos.

O universo X tenta ser um pouco mais realista – na medida de estarmos falando de um mundo fantástico, claro – desde o primeiro filme, com roupas de couro preto ao invés das coloridas dos quadrinhos. Isso se reflete no visual mais simples de Pietro (mesmo que as cores prateadas façam um relação com o futuro). Também é assim nas relações com o John Kennedy, o presidente do filme ser o mesmo da época, as referências à Guerra do Vietnã, as filmagens em Super 8 e uma piada sobre naquela época Hank conseguir uma aparelho que grave “todos” os três canais.

Podemos notar um extremo cuidado no design de produção. As locações remetem não só aos seus lugares reais – Muralha da China, a Casa Branca – mas a metáforas bem construídas. No começo do filme, os mutantes se refugiam num monastério (buscam paz). Já no segundo ato, Trask aparece num corredor que tem a sua altura (busca se adequar ao mundo normal). E os efeitos especiais são ótimos e usados com moderação: as cenas do começo mostram os poderes das Sentinelas – apesar do design modernizado lembram os modos do Destrutor de Thor (Thor, 2011) – para depois desacelerar para um ponto de vista humano, para só depois vermos com quem estamos lidando.

É difícil entender como Singer está tão bem aqui e tão desleixado em seu filme anterior. Sem receio de me repetir, há um cuidado na sua visão que ficamos impressionados. Determinado ponto do filme, Trask está com todas as cartas na mão. Nesse poder, o diretor começa a filmá-lo de costas, mas põe a câmera na altura dos ombros dele – um ator que tem 1,35m – e ali diz que ele tem as rédeas da situação. Ou quando Erik persegue Mística, notem que ele em roupas civis usa roxo e vermelho, tanto tons do uniforme clássico quanto representativos de morte e ódio. E, para o bem da história, Singer e Kinberg apenas pincelam teorias quânticas, mas é o suficiente para a discussão da ideia.

É até poético que X-Men: Dias de um Futuro feche um ciclo iniciado em 2000. Singer consegue costurar toda a franquia e homenageando os universo que ajudou a criar, com as aparições de Tempestade/Ororo (Berry), Bobby/Homem de Gelo (Ashmore) e outros mutantes, e do jovem William Stryker (Helman). Se há alguma que incomoda é a ressurreição do Professor Xavier, ainda que exista a cena extra de X-Men 3 que, ao meu ver, não explica propriamente o fato. Perder mais três minutos de elucidação não faria mal. Mas isso não é suficiente para diminuir a ótima experiência. Tudo na continuação é maior e melhor que o filme de 2011, e o resultado traz inúmeras possibilidades para o Universo X. Ao se reinventar, é com gosto que esperaremos a sequência.

E não preciso explicar isso, mas vamos lá: há uma cena extra. Uma que vai matar do coração os fãs da série.




  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

OLHO NU


por Beto Besant

A música tem forte presença na memória emotiva de quase todos. Frequentemente somos pegos de surpresa por uma música que nos leva a um tempo que gostaríamos de congelar. Porém existem artistas que superam qualquer barreira, passando a fazer parte de nossas vidas como se tivessem laços sanguíneos conosco. E Ney de Souza Pereira, conhecido como Ney Matogrosso, surge na telona com uma força raramente vista.


Olho Nu, documentário de Joel Pizzini, trás raras imagens de arquivo do artista que somam cerca de 300 horas e foram cuidadosamente guardadas em quatro décadas de carreira. Ele conta que sempre que se apresentava na TV pedia uma cópia do material.

No ano passado, Ney doou todos os seus figurinos guardados para o Senac, pois sabia que assim teria mais condições de restauro e manutenção, e por acreditar que seu acervo estaria melhor se exposto para quem tivesse interesse. O mesmo fez com suas imagens, que colocou à disposição do diretor para a realização do filme, e comenta que gostaria que a vasta quantidade de imagens gerasse outros filmes.

Como já era de se esperar, o documentário tem muita música, além dos muitos depoimentos do artista - quase como num musical. O maior problema é que não segue uma narrativa tradicional, para que o público que não conhece sua história passe a conhecê-la, nem uma narrativa transgressora - maior característica do artista. A impressão que se tem em certos momentos é que a montagem foi aleatória.

Quem conhece a riquíssima história do biografado, sabe que o filme não apresenta 1% dela, que inclui ameaças da ditadura, o convite para formar uma banda internacional que transformou-se na Banda Kiss, a descoberta da bissexualidade, o contato direto com a AIDS, o rápido namoro com Cazuza, drogas, Santo Daime, etc. Foi premiado pelo Voto Popular no Festival In-Edit - São Paulo, provavelmente graças ao fato dele ser um dos únicos casos de unanimidade nacional.

Olho Nu é interessante pelo valor histórico de suas imagens e pela qualidade musical, mas não inova nem apresenta o artista.  Apesar disso, a força de sua música e a articulação de seus depoimentos tornam o filme importante de se conhecer.


  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

PRAIA DO FUTURO


por Antonio Carlos Egypto

Muita luminosidade. Sol. Água. Estamos na Praia do Futuro, em Fortaleza. Bela e perigosa. Um salva-vidas, Donato (Wagner Moura), tenta em vão evitar o afogamento de um banhista. A cena que abre o filme e mostra essa luta no mar, entre a vida e a morte, nos indica que muita tensão e muita dor podem vir por aí.

Jesuita Barbosa, Wagner Moura, Karim Ainouz e Clemens Schick
Virá, também, uma história de amor homossexual, que nos remeterá da ensolarada Praia do Futuro para o colorido acinzentado de Berlim no inverno. E conhecemos Konrad (Clemens Schick), piloto alemão, objeto de amor do brasileiro Donato.


Há mais. Em busca não só do amor, mas do risco, da aventura e da liberdade, Donato abandona sua família, deixa para trás o irmão menor, que tinha nele um ídolo: Ayrton (Jesuíta Barbosa). E que, mais crescido, vai cobrar a fatura do abandono que teve de amargar.

Jesuita Barbosa, Wagner Moura e Karim Ainouz
Gente que ama. Gente que perde. Gente que se aventura. Gente que cobra. Gente que se enraivece. Frustrações, decepções, surpresas, arrependimento. É de tudo isso que se trata. O novo filme do conceituado diretor Karim Aïnouz é um trabalho autoral, que penetra nos sentimentos mais fortes e nas relações mais intensas. Valendo-se de uma câmera que invade e escancara a intimidade. Também dos corpos, mas principalmente das emoções. Com interpretações viscerais de atores que nem sempre falam a mesma língua (é uma coprodução brasileira-alemã) ou que juntam muita experiência com o vigor da juventude em que a experiência começa a aflorar. Com muito ensaio, o resultado sai muito bom.


De Wagner Moura nem é preciso dizer, é um dos grandes atores da atualidade brasileira. No cinema, ficou famoso como o Capitão Nascimento, de Tropa de Elite 1 e 2, pelo menos para o grande público. Na verdade, é um ator versátil, que dá credibilidade a qualquer papel: aqui, como salva-vidas e gay, ele, mais uma vez, brilha. Até quando emite algumas falas decoradas em alemão, ele é capaz de convencer.

Clemens Schick

O mesmo se dá com Clemens Schick, que atuou com um elenco brasileiro sem falar português. Mas teve poucas falas decoradas aproveitadas. O filme tem pouco diálogo, é muito visual. Ficou com ainda menos diálogos porque nem sempre as falas decoradas passaram pelo crivo do diretor. Melhor assim: é um cinema que mostra, não fica explicando.

Jesuíta Barbosa, que faz o irmão menor do protagonista, é um ator muito talentoso. Já havia demonstrado isso em Tatuagem, de Hilton Lacerda, de 2013. Tem lugar garantido na nova geração de atores brasileiros que começa a se destacar.




É mais um filme brasileiro que ousa sair do que o chamado “mercado” possa esperar. Que está mais interessado em cutucar vespeiros emocionais, refletir sobre caminhos e escolhas e que não se satisfaz em oferecer o conhecido, o já assimilado, o que vende. Busca expressar o que lhe parece importante e relevante. É por aí mesmo.



  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Coletiva: A GRANDE VITÓRIA


por Beto Besant

Na última segunda-feira, dia 5/5 aconteceu na cidade de São Paulo a coletiva de imprensa do filme A Grande Vitória. Estavam presentes o diretor Stefano Lapuzzi Lapietra, os atores Caio Castro, Sabrina Sato, Moacyr Franco, Suzana Pires, Tato Gabus, Felipe Folgosi e o biografado Max Trombini.

ator Felipe Folgosi e o judoca Max Trombini

O filme é baseado no livro Aprendiz de Samurai - de Max Trombini, uma autobiografia sobre o judoca de origem pobre - interpretado por Felipe Falanga e Caio Castro - cujo pai (Domingos Montagner) o abandonou e acaba por extravasar sua energia na arte marcial, tornando-se um dos maiores atletas do país. Seu instrutor é vivido por Gabus, sua mãe por Suzana Pires e seus avós por Moacyr Franco e Tuna Dwek. O próprio Trombini faz uma participação como professor de educação física. Folgosi interpreta um colega do protagonista.

ator Caio Castro e o diretor Stefano Lapietra

Dirigido pelo estreante Stefano Capuzzi Lapietra, A Grande Vitória tem ainda a participação especial de Sabrina Sato e trilha-sonora assinada também pelo estreante maestro João Carlos Martins. O roteiro é assinado pelo próprio Lapietra com Paulo Marcelo do Vale e Wagner Hilário.



Lapietra conta que a ideia surgiu ao ouvir no rádio uma entrevista de Trombini, o judoca, por sua vez, conta que sempre soube que um dia fariam um filme sobre sua história. Tão logo o filme foi acertado, Castro foi contratado: "Quando conheci o Max houve simpatia mútua, então decidi ficar 'na sua cola', chegando a morar com ele por dois meses. Quando conheci sua mãe e ela perguntou por que falávamos igual, aí veio a emoção" - conta Castro.


Trombini revela que ficou surpreso com a dedicação de Castro para o papel: "Ele queria passar pelo treinamento real de um atleta e eu falei que não suportaria, mesmo assim ele insistiu. Além de ter aguentado um treinamento que muitos atletas desistem, na cena final suportou tantos tombos que teve que tomar relaxante muscular para aliviar as dores, e mesmo assim não pediu para que interrompesse as filmagens".

atores Suzana Pires e Moacyr Franco
A atriz Suzana Pires falou sobre a oportunidade de conhecer pessoalmente a mãe de Trombini: "Ela pediu para falar comigo em particular, essa conversa secreta - já que ela não me autorizou revelar o que foi dito - foi importantíssima para a construção do personagem".

O cartaz sugere que Sabrina Sato e Caio Castro formam a trama central do filme, porém a participação dela não chega a dez minutos. 

A Grande Vitória busca um gênero não muito explorado no cinema nacional: o filme de esporte com a auto-ajuda como "pano de fundo". 


  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

EU, MAMÃE E OS MENINOS (Les Garçons et Guillaume, à table)


por Antonio Carlos Egypto

A identidade de gênero, ou seja, ser e se sentir homem ou mulher, depende não apenas de um corpo biológico masculino ou feminino, mas também de determinantes socioculturais. Se as pessoas ao seu redor o veem de um modo diferente do que você se vê, o que prevalecerá? O que é ser masculino, quando seus modelos de referência são femininos?


É possível questionar os padrões, condutas e vestimentas atribuidos ao seu gênero, sem por isso negá-lo? Ou seja, inovar no gênero? Não é fácil, mas é possível. Vejamos o exemplo do cartunista Laerte, que atualmente se utiliza de um vestuário caracterizadamente feminino, mas não deixou de ser visto como homem, com identidade e nome masculinos, apesar das roupas, digamos, dissonantes. Acontece que ele já tinha uma larga história de vida, vivida e reconhecida no seu meio e pelo público. Sua mudança surpreendeu, foi debatida e assimilada. Se se tratasse de uma criança ou jovem desconhecidos teria sido igual?



Guillaume é um menino, ou poderia ser. Mas não é tratado como tal. A mãe individualiza sua pessoa, distinguindo-a dos outros meninos. Essa é a razão do título Les Garçons et Guillaume, à Table ou, na versão brasileira, Eu, Mamãe e os Meninos. Quem seria eu?


Há mães, como parece ser o caso da de Guillaume, que, após ter dois meninos, desejava uma menina para se espelhar, se identificar com ela. Se a biologia não colaborar, que tal ignorá-la? Guillaume segue o desejo materno e mimetiza de tal modo a mãe que até se confunde com ela, ocupa o seu lugar sem que outros percebam, quando fala sem ser visto. Improvisa com suas roupas de garoto, criando sempre um modelito mais feminino. Inspira-se não só na mãe, mas em outras mulheres que observa e admira, da família ou fora dela.


Isso significa que Guillaume será gay? Não, porque nada disso tem a ver com o desejo sexual pelo mesmo sexo. A identificação com o gênero feminino não significa, necessariamente, a orientação homossexual ou bissexual da atração, do desejo.


O filme Eu, Mamãe e os Meninos lida com isso inteligentemente e cria situações divertidas e inesperadas. O ator, roteirista e diretor Guillaume Gallienne dá um show de interpretação na caracterização desse personagem especial e, também, no de sua mãe. O público francês adorou, mais de 3 milhões de ingressos foram vendidos por lá. A crítica também: o filme foi indicado a dez prêmios César 2014, o Oscar francês. Venceu cinco, inclusive o de melhor filme e melhor ator.


Divertido e inteligente o filme é. Engraçado, nem tanto. Há poucas cenas que provocam o riso, que podem ser capazes de levar o público às gargalhadas. De qualquer modo, é uma boa comédia e tem um enfoque muito interessante e adequado ao tema de que trata. Em tempos em que é raro encontrar uma comédia de qualidade, sem maiores apelações, é bem-vinda. Se todos os prêmios e o sucesso de público se repetirão fora da França, só o tempo dirá. Aparentemente, não é para tanto. Mas vale a ida ao cinema. Há originalidade nesse trabalho.


  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Entrevista: GETÚLIO

Beto Besant entrevista Tony Ramos e Alexandre Borges, atores do filme Getúlio - de João Jardim.



  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Pré-estreia: FLORBELA

por Beto Besant
Nesta segunda-feira 28 de abril aconteceu na cidade de São Paulo a pré-estreia do filme Florbela.

A produção portuguesa foi lançada em 2011, chegando só agora nas telas brasileiras através da distribuidora Imovision. No evento estava presente a protagonista Dalila Carmo, que apresentou seu trabalho para uma sala lotada.
O filme traça um perfil da famosa poeta portuguesa Florbela Espanca e fez muito sucesso com seu público, sendo a produção portuguesa de maior bilheteria do ano no  país.
A poeta, nascida no final do século XIX, escandalizou a sociedade com atitudes à frente de seu tempo através de uma forte postura feminista, vestindo calças compridas, fumando, se casando diversas vezes, etc.
A trama mostra o final de um dos casamentos de Espanca, seu novo relacionamento e sua forte relação com seu irmão Apeles (Ivo Canelas). Sua instabilidade emocional a impede de escrever, com isso se deixa levar pela vida boemia e romances extraconjugais.
O longa-metragem tem uma belíssima direção de fotografia, uma direção de arte riquíssima, reconstituindo a época retratada com muita perfeição. O roteirista/diretor Vicente Alves do Ó também apresenta um trabalho muito maduro e eficaz, como na cena em que gira a câmera sobre a cabeça da protagonista, traduzindo sua agonia por não conseguir escrever.
O roteiro optou - de forma acertada - por não tentar explicar todos os detalhes da vida de Florbela, uma vez que sua história é muito controversa. Na conversa após a sessão, a atriz comentou que cada biografia da poeta dá uma versão, por isso a construção de um roteiro aberto (quando deixa para o público deduzir o que não é mostrado).
Com belas atuações - principalmente de Carmo e Canelas, apoiado num bom roteiro, a direção competente faz com que o público sinta uma tensão sexual entre Florbela e seu irmão, mas nunca deixando claro o que realmente aconteceu.
O único problema do filme está na montagem de João Braz, que apesar de ter elipses interessantes (quando acontece uma passagem de tempo – neste caso ao passado) é um pouco lenta e cansativa, principalmente na segunda metade do filme, quando “escorrega” um pouco para chegar ao seu final.
Somando-se prós e contras, o saldo é positivo. O filme merece ser visto, não só pela produção esmerada e bom roteiro e direção, mas também para conhecer um pouco da história fascinante desta poeta do país que nos colonizou e que sabemos tão pouco.

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

ENTREVISTA: Copa de Elite

Beto Besant entrevista Vitor Brandt - diretor do filme Copa de Elite, além dos atores Marcos Veras e Rafinha Bastos.
 
 

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

Entrevista: CONFIA EM MIM

Beto Besant entrevista os protagonistas do filme Confia em Mim: Mateus Solano e Fernanda Machado.


  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

ENTRE NÓS


por Tiago Paes de Lira

Fugindo de uma visão maniqueísta ou parcial, Paulo e Pedro Morelli – pai e filho – criam um universo riquíssimo em Entre Nós. O filme é um misto de suspense e nostalgia que prende a atenção e emociona, e é dotado de uma doçura dos laços de amizade, e como eles podem ser quebrados. A qualidade do drama brasileiro atual se confirma nessa produção que, apesar de tão pessoal, tem um aura espontânea e verdadeira, mas sem deixar de lado os sentimentos do público.

Os amigos e escritores Felipe (Caio Blat), Lucia (Carolina Dickman), Silvana (Maria Ribeiro), Gus (Paulo Vilhena), Cazé (Júlio Andrade) e Drica (Martha Nowill) se reúnem numa casa de campo para desenterrar uma cápsula do tempo feita dez anos antes com as cartas de cada um, inclusive do amigo morto nessa época, Rafa (Lee Taylor). Suas vidas estão mudadas, e esse reencontro traz à tona velhas lembranças e um desconforto especial para pelo menos um deles.

O cenário proposto no filme traz algo de paz. Porém, num lugar isolado, parece que a consciência fala mais alto. A presença dos amigos, que deveria ser um momento de alegria, é um peso para Felipe. Logo na primeira cena, ele está naquele cenário imenso, mas isolado – sensação aumentada pela razão de aspecto – fumando um cigarro trêmulo, escondido atrás de grandes óculos pretos. E é hora de entender por quê.

O flashback de 1992 mostra um cenário diferente. Mais sorrisos, uma câmera na mão mais livre e uma fotografia cálida mostram jovialidade e esperança desses amigos numa confraria de autores com esperanças e sonhos. Imagens que, de certo modo, morrem com Rafa. Toda essa mudança é representada poeticamente durante o reencontro, na fotografia pálida, na câmera fixa, na seriedade do figurino de alguns dos amigos e principalmente na árvore que antes cuidava, por assim dizer, da pedra que marca o lugar da cápsula do tempo, e que em 2002 não está mais lá.

Há uma disparidade latente entre esses amigos, com problemas não resolvidos, e os dois Morelli colocam isso no meio de perguntas não respondidas. Por exemplo, por Lucia ser a esposa de Felipe, mas há dez anos ter sido namorada de Gus. Isso pode levantar questionamentos, como se seria ela interesseira e ficou com Felipe por causa de seu sucesso literário. Ainda assim, todos se gostam muito. Principalmente as moças, que dão a liberdade de xingarem umas às outras sem que isso seja um problema.

Mas existe a tensão que é apresentada no começo do filme. Digno de outros mestres do suspense, a trama vai se fechando no culpado mais e mais. Agatha Christie dizia por meio de seu personagem Hercule Poirot que basta você deixar que um mentiroso fale e ele eventualmente se entregará.

Por ser um filme de suspense, é necessário entrar um pouco na trama para fazer a análise. O mistério já é entregue de bandeja no trailer, infelizmente. Mas no filme não demora para entender que Felipe roubou o livro ainda recém-finalizado de Rafa depois do acidente de carro que os dois sofreram. Ele ganha fama e dinheiro, mas é perseguido pelo que o amigo pode ou não ter escrito na cápsula do tempo. Isso se torna uma paranoia, e ele se entrega só falando um pouco aqui e ali. Interessante que a primeira a desconfiar, inconscientemente, é Silvana, numa cena com um plano longo e com um sino ao fundo, como se ela despertasse pela primeira vez. Então, Felipe acha que todo comentário é sobre ou contra ele, o que não deixa de ser parecido com a paranoia do protagonista de O Coração Revelador (Edgar Alan Poe): Rafa é um fantasma que atormenta Felipe.

Seguro na história que contam, os Morelli não julgam e abrem espaço para os outros personagens da trama serem tridimensionais com seus anseios de dúvidas. Felipe não é um vilão superficial, por isso existe mais uma cena de flashback, desta vez no fim do segundo ato, mostrando que ele tentou salvar a vida do amigo, e o rascunho do livro veio junto por consequência. Ao montar e editar o rascunho em forma de livro além de ideias num papel, Felipe acredita com fervor ter direitos à obra, considerando-a parte dele, pois incentivava o amigo a escrever e melhorar. A cena sabiamente foi colocada não no começo porque o espectador – representado por Lucia dentro do filme – já sabe que Felipe vive uma mentira e possivelmente se apressou a julgá-lo. A história mostra mais um aspecto de cinza.

Os diretores não se esquecem dos outros personagens do núcleo, cada um com suas angústias. Drica querendo ser mãe, enquanto Cazé não; a visão autodepreciativa de Gus, que se vê sempre como alguém que não faz nada certo; Lucia, que por causa da farsa de Felipe cai numa espiral de dúvidas; e Silvana não parece se encaixar mais no grupo, principalmente por ter perdido seu par, por assim dizer.

Além de tudo isso, o filme é uma produção original num mar de continuações, remakes e adaptações e impecável tecnicamente. A fotografia de Gustavo Hadba tem poucas, mas excelentes nuances, e consegue fotografar lindamente cenas noturnas, visto principalmente quando Felipe se entrega e, um pouco mais a frente, quando Gus e Lucia se entregam. E o largo aspect ratio 2.39:1 fogem do estigma que a produção nacional tem com a TV, tão comum nas comédias do Brasil.

Entre Nós é um filme cheio de poesia. Os Morelli gostam de trabalhar com metáforas, e é divertido analisa-las. Além do já citado sino, há uma cena de jantar que antecede a retirada da pedra, cheia de closes fechados e tensos. E a belíssima cena em que Drica e Gus discutem sobre depressão enquanto vão descendo um barranco. Na conclusão, os dois estão mais leves e se ajudam a subir de volta. A mais forte, ainda que menos clara, é a do besouro, que aparece três vezes durante a projeção. Em entrevistas, Paulo Morelli já foi perguntado mais de uma vez o que esse símbolo quer dizer, e ele sempre devolve a pergunta, o que não deixa de ser a função da crítica. Tanto Felipe como o besouro de costas estão presos na sua situação, e não conseguem sair delas sozinhos. É necessário um agente externo, um empurrão para que isso aconteça. Mas depois de tanto passar, tanto saber, como voltar para a sua vida normal? De novo, pai e filho na direção não dão as respostas mastigadas, mas deixa-nos imaginar dentro desse doce e triste universo. Seja lá como for, uma coisa é certa: no fim, ninguém sai incólume. Nem os amigos, nem nós, o público.


  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS

ENTREVISTA: SOS Mulheres ao Mar

Beto Besant entrevista o elenco do filme SOS Mulheres ao Mar: Giovanna Antonelli, Emanuelle Araújo, Marcelo Airoldi, Fabiula Nascimento e Thalita Carauta.


  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS