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A CULPA É DAS ESTRELAS (The fault in our stars)


por Tiago Paes de Lira

Provavelmente você já viu uma centena de filmes românticos, um mais água que açúcar que o outro. E se você for homem, é mais provável ainda que o esquema “garoto conhece garota/garoto perde garota/garoto reconquista garota” não seja o seu estilo. Mas eis que A Culpa é das Estrelas vem para jogar para cima, pelo menos ligeiramente, esses conceitos. A história doce, romântica e triste é um paralelo da a vida em si. Como diz a protagonista, existe um pequeno infinito entre dias, mesmo que esses sejam contados. Surpreendentemente emocionante, é um filme para casais sim, mas com uma carga emocional que fará muita gente grande – inclusive homens – chorar.

Hazel Grace Lancaster (Shailene Woodley) é uma adolescente diagnosticada com um tipo de câncer terminal. Incentivada pela mãe (Laura Dern) ela começa a frequentar um grupo de apoio, onde ela conhece Augustus “Gus” Waters (Ansel Elgort). A relação dos dois começa a crescer, mesmo que Hazel se considere uma granada prestes a explodir. Apaixonado e sabendo do estado dela, Gus faz de tudo para realizar o sonho da protagonista: conhecer Peter van Houten (Willen Dafoe), seu autor favorito. E provam que mesmo uma relação fadada ao fim pode ter contornos de uma história de amor de anos.

Quem me acompanha já sabe da minha ojeriza por narrações off. Pois bem, esse filme tem bastante, mas, em muito tempo, foram bem usadas. Hazel começa a contar sua história já marcando que não será como uma música romântica de Peter Gabriel. Vamos ouvindo a sua voz durante os primeiros minutos de projeção, sobre sua vida e a relação com os pais. Porém, essa narração para no momento que ela conhece Gus. Poético isso. Naquele momento, a protagonista encontrou alguém que a completava, e a necessidade de falar de si mesma acabou. A partir do fim do primeiro ato, o que importa é a história dos dois juntos, e ninguém precisa falar sobre isso. É apenas preciso ver.

Sem muitas delongas, a história é exclusiva de Hazel e Gus. Com exceção do amigo Isaac (Nat Wolff) mesmo as pessoas mais próximas dos dois não são chamadas pelos nomes. Tanto os pais dele quanto dela são apenas Sr e Sra Lancaster e Sr e Sra Waters. O que não quer dizer que eles são descartáveis. A relação da Sra Lancaster (Dern) com a filha é muito doce. E junto do Sr Lancaster (Sam Trammel), os três tem uma relação bem interessante. Apesar da doença terminal de Hazel, eles não podam a filha exatamente por saber que a jovem tem pouco de vida. Sim, a mãe se preocupa se a filha está isolada demais, e o playground que ainda funciona no quintal dos Lancasters remete ao passado, mas a mãe é sempre uma incentivadora da filha, ao invés de superprotetora, como vemos na cena em que ela presenteia a filha com um vestido para o encontro romântico com Gus. É quase uma relação entre ídolo e fã.

O romance do filme é desviado por alguns momentos de comédia às vezes politicamente incorretos. Nos pegamos rindo porque um cego não consegue acertar um alvo. Também acontece quando vemos que Gus é um desastre sobre rodas, mas é fácil de se esquecer por um momento que isso pode ser porque ele tem uma perna mecânica e não sabe controlar direito um carro. Créditos ao diretor por nos colocar numa situação dessas.

E há os momentos dramáticos que pode trazer algumas lágrimas. Você se apega fácil ao casal e, como Gus aponta, essa é a história de Hazel e não do câncer dela. Por isso que as partes tristes são tão marcantes, como a crise respiratória da protagonista. Existe um certo conforto porque é Hazel que conta a história para nós – o que indica que ela estaria viva no fim do filme – mas subitamente nos lembramos que o câncer dela é terminal e que, mesmo nesse mundo fictício, a vontade de que os dois jovens fiquem juntos é verdadeira.

Existe sim o conflito clássico na narrativa. E ele é bem artificial e desnecessário, e serve só para ser conflito, que é resolvido rapidamente. Mas a sensação é que foi só para ganhar alguns minutos de projeção. Apesar de não prejudicar a experiência, há um certo incômodo pelo uso desse artifício.

Feliz também no design de produção e figurino, podemos notar que o diretor Josh Boone eficientemente trocou as narrações do começo por coisas mais visuais. Podemos citar algumas mais simples – como ospop-ups que pulam na tela a cada vez que Hazel e Gus trocam mensagens pelo celular – ou outras mais sutis no figurino – Hazel se veste várias vezes de roxo (sinal ligado à morte), ou quando em Amsterdã os dois compartilham tons de azul (segurança) e no ambiente – para reforçar que Hazel é uma mulher forte, a vemos assistir na TV dois personagens com essa característica: Buffy (de Buffy – A Caça Vampiros) e Ripley (da Quadrilogia Alien), além de um pôster com uma figura de lâmpada que os dois compartilham. Esses pequenos pedaços montam uma relação muito rica, mas que teve pouco tempo para florescer.

A Culpa é das Estrelas lida com o amor e esquecimento. Talvez as duas coisas mais difíceis de se lidar no mundo. A história romântica à primeira vista funcional apenas para o público feminino tem tudo para agradar mais gente. Mesmo num filme desses, o primeiro “eu te amo” aparece somente no 3º ato, quebrando alguns paradigmas do estilo. E pode não parecer à primeira vista, mas é um filme inteligente demais, abordando metáforas, discussões sobre vida e morte e o amor. Vinícius de Moraes disse que amor é chama, e que é imortal enquanto dure. Hazel coloca em outras palavras, dessa vez num cunho matemático – onde ela tenta racionalizar o que sente – o que se transforma num belo discurso. Ao fim, percebemos melhor porque o diretor focou a frase de Anne Frank “Pense em toda a beleza que ainda resta em torno de você, e seja feliz”: pegue essa mensagem, a de Hazel e por que não a de Vinícius e se emocione, porque é justo. Ok?


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