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A 5ª ONDA (The 5th Wave)


por Diego Castro

Outra obra literária conhecida, Distopias Juvenis ganha as telas do cinema. Desta vez tendo o elenco liderado pela a conhecida Chloë Grace Moretz (Kick Ass), que encarna a personagem Cassie Sullivan, adolescente normal que tem o seu mundo - literalmente - virado de ponta cabeça.
Após uma nave alienígena aparecer no céu, alguns ataques começam. Apelidados de ondas, a primeira foi um pulso eletromagnético, a segunda foram maremotos, varrendo cidades inteiras. A terceira onda foi um vírus que matou parte da população no planeta e a quarta foi a possessão de seres humanos pelos alienígenas (igual ao filme Invasores de Corpos). Se não assistiu, por favor assista, é ótimo. 
Com medo, os seres humanos apenas sabem que a quinta onda está próxima, e Cassie tem certeza de que vai estar no centro dela. 

Este filme tem uma premissa interessante, afinal este é um tema que Hollywood não usa há muito tempo. Por outro lado, o filme se perde num roteiro pobre e um diretor sem domínio da sua arte. As cenas perdem força, mesmo que a intenção seja outra. O longa tem um primeiro ato sólido e intrigante, mas no segundo ato desmorona.

O desenvolvimento da história vai ficando pior a cada instante, pois ela se divide entre Cassie procurando seu irmão - que foi levado pelo exército - e um garoto chamado Ben Parish (Nick Robinson) que foi recrutado pelo exército depois da morte da família.
O roteiro faz questão de ter essas duas partes no enredo, uma correndo paralelamente à outra, nunca se aprofundando totalmente em nenhuma delas. Não há tempo de construir relações com Ben Parish, pois não sabemos quem é ele antes do ataque, nem a história da Cassie.
Além de parar no meio chega a ser entediante, a personagem fica fora das grandes reviravoltas da trama, que são importantes para o filme conquistar sua audiência. Ou seja, existe uma história muito interessante acontecendo e você não pode ver, pois a protagonista não está no centro do furacão, como a sinopse diz.


Um ponto positivo é a montagem do longa, sabendo dosar a informação necessária para o espectador durante a cena. Contudo, cada frame mostra quanto o diretor opta pelo básico, sem arriscar.

O elenco parece apático. Chloë Grace Moretz, por exemplo, sabe entregar uma boa atuação quando o diretor consegue extrair. Porém, quando ela precisa atuar com o seu par romântico, é quase sofrível ver os dois em tela, a química chega a ser lastimável, mesmo os produtores jogando em uma trama segura como a da Bela e a Fera. O romance insinuado pelo casal fica fraco e bobo.

Sendo assim a 5ª Onda é uma oportunidade desperdiçada e genérica, quem sabe melhora numa continuação, caso isso aconteça.


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REZA A LENDA


por Beto Besant

O cinema brasileiro sempre viveu de "ondas". As mais recentes foram Favela Movie e comédias conhecidas como Neo Chanchadas. Porém, as mesmas pessoas que criticam o cinema monotemático, rechaçam as poucas tentativas de se fazer algo diferente, genuíno.

Neste caso, Reza a Lenda foi vendido como o "Mad Max brasileiro". Obviamente, um filme que custou poucos milhões de reais não pode ter o mesmo resultado de outro que custou centenas de milhões de dólares. Portanto, este marketing é uma "faca de dois gumes".

Reza a Lenda : FotoO filme conta a história de um grupo de motoqueiros de uma região árida nordestina que não chove há muito tempo, liderados por Ara (Cauã Reymond) e Severina (Sophie Charlotte). Segundo a crença local, a santa padroeira - roubada pelo fazendeiro Tenório (Humberto Martins) e exposta a visitação mediante cobrança - é responsável para que volte a chover.
Os motoqueiros roubam a santa com o objetivo de devolvê-la ao seu lugar original, o que provoca uma caçada sangrenta por parte do coronel.

Reza a Lenda começa muito bem, com  uma cena de grande impacto que só ocorreria cronologicamente uns vinte minutos depois se não fosse a bela "sacada" do experiente montador Manga Campion. Nos seriados americanos, essa abertura instigante é chamada de Tease.

Com uma bela produção - fotografia, direção de arte e figurinos impecáveis - o filme causa muita curiosidade sobre seu desfecho, mas como o cinema não vive só de técnica, por algum motivo a história não se completa. Talvez porque o elenco seja composto basicamente de rostos conhecidos do grande público mas não exatamente as pessoas ideais para interpretar essa história. Não que Cauã, Humberto e Sophie não estejam bem - estão bem melhor do que habitualmente - porém ainda deixam a desejar ao interpretarem personagens tão fortes e rústicos. Ainda assim, deve ser a melhor interpretação de Cauã até o momento.
Os dois melhores atores do elenco - Júlio Andrade e Jesuíta Barbosa - estão subaproveitados, Júlio, por exemplo, interpreta uma espécie de xamã, personagem completamente dispensável à trama.

Reza a Lenda : Foto

Filme de estreia de Homero Olivetto - que assina o roteiro com Patrícia Andrade e Newton Cannito - lembra uma espécie de Mad Max misturado com Easy Rider, e peca ao lapidar mais a forma do que o conteúdo. De qualquer forma, é sempre bom ver cinema nacional bem produzido e tentando apresentar algo diferente do padrão. Fica o gostinho na boca ao imaginarmos se tivesse sido escrito, dirigido e atuado por artistas que fizeram do cinema pernambucano o melhor cinema do país.


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SNOOPY E CHARLIE BROWN PEANUTS - O FILME (The Peanuts Movie)


por Diego Castro

Charlie vem há vários anos encantando adultos e crianças, tendo o mesmo efeito da Turma da Monica aqui no Brasil. Contudo, ao invés de se adequar com o seu tempo se distanciando do carisma original para agregar uma nova audiência, vemos que Charlie Brown tem uma evolução bem mais sutil do que a Monica, mantendo o carisma para todas as idades, não importando que época você nasceu, sendo esse filme prova irrefutável desse pensamento.

No bairro de Snoopy e Charlie Brown muda-se uma nova garotinha de cabelos ruivos, por quem nosso garotinho de roupa amarela se apaixona e vai tentar de tudo para conquistá-la, tendo ajuda de seu fiel companheiro Snoopy

Snoopy e Charlie Brown - Peanuts, O Filme : FotoA premissa do longa é simples, parecida com muitos filmes do Snoopy e sua turma (os especiais para TV nos EUA). Logo no início é impossível não perceber como os animadores casaram harmoniosamente o estilo 2D com o 3D, criando em cada frame um quadro lindo e estilizado de forma primorosa, deixando animação diferente de outros estúdios (Pixar e Dreaworks), criando uma identidade própria e bem-vinda, o que poderia se chamar de 2.5D, uma evolução clara do mundo do Peanuts.

Claro que a estética do filme cairia por terra, se não houvesse uma história à altura da animação. Os roteiristas conseguem preencher este - que era o maior desafio - contar uma história singela, passando várias lições humanas e esbanjando nostalgia, sem ficarem presos a fórmulas do passado, mas apenas prestando homenagem a elas, mostrando algo novo para a audiência infantil e sem esquecer seu antigo público, que se encontra no cinema com seus próprios filhos. Esse é um dos pontos positivos da animação, sem esquecer o trabalho lindo da dublagem, que se mistura bem com o espirito do longa (sendo dublado apenas por crianças). É uma boa interpretação de um elenco inexperiente, onde as vozes conseguem apresentar todas as qualidades e defeitos dos personagens, além de Snoopy - que rouba cada cena - enchendo a tela de carisma acompanhado pelo passarinho Woodstock.


BlueSky Studios se destaca com uma distinção formidável, mesmo tendo alguns aspectos para chamar atenção dos pequenos (músicas pop que embalam algumas cenas) que não prejudicam a experiência nostálgica, aproveitam para explorar com admirável sutileza os cenários e os ambientes propostos. Nada parece forçado, tudo flui com a trilha sonora original, que faz você pensar nos sábados de manhã vendo a TV.

O ritmo desacelerado do filme pode pegar as pessoas desprevenidas, mesmo sendo um pouco maior do que uma tirinha de jornal, contudo a animação consegue contagiar a todos ao assistirem, principalmente os pimpolhos de todas as idades, até os mais velhinhos.


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A GRANDE APOSTA (The Big Short)


por Tiago Lira


A Grande Aposta é um filme hilariante e genial. E ao mesmo tempo causa asco ao espectador. O diretor Adam McKay destrinchou uma história bem complicada para os mais leigos e tentou trazer para um nível mais popular uma das piores crises financeiras da história. A maneira que ele faz isso é de bater palmas. Ao mesmo tempo não deixa de lado os culpados de lado nessa questão. É aí que o espectador tem vontade não de levantar e bater palmas, mas sim bater no primeiro banqueiro que encontrar.

De maneira um tanto documental, McCkay acompanha três núcleos que previram de um jeito ou outro a futura crise. Para entender suas motivações ou visão de mundo, o diretor conta a história deles por meio de flashbacks e por depoimentos de outros personagens. E nesse meio caminho entre dramatização e documentário, temos fatos sendo explicados por narrações off e de maneira espetacular por pessoas mais próximas da nossa realidade: as atrizes Margot Robbie e Selena Gomez, o economista Richard Thaler e o chef Anthony Bourdain explicam as dezenas de siglas e como o mercado funciona em situações de crise. É tão inesperado e tão engraçado que esses momentos mereciam aplausos no meio da sessão. Mesmo que você saia confuso com as explicações.

A Grande Aposta (The Big Short)O diretor quebra a quarta parede com as explicações dos que estão de fora e dentro daquele mundo tão complicado, numa interação espectador/filme pouco vista no cinema atual. E ao invés de usar esses elementos de narração como muleta, o diretor serve a narrativa com ela. Por exemplo, ao contar a história de como Michael Burry (Christian Bale) perdeu um olho McCkay humaniza o personagem. E ele faz o contrário quando Jared Vennett (Ryan Gosling) faz uma piada racista com o seu contador oriental – que é tão americano quanto ele – para reforçar a imagem escrota desse personagem.

Apesar da comédia que permeia todo o filme, McCkay é competente o suficiente para manter os pés da audiência no chão. De vez em quando, ele nos lembra de que muita gente sofre nesse ínterim – enquanto aponta o dedo para aqueles que merecem. Vejam Mark Baum (Steve Carell), que tem um nojo por esse mercado que participa – um sentimento atrelado a um evento recente – e por isso vai com afinco na proposta de Vennett, que poderia prejudicar as víboras de Wall Street. Numa marcante cena que ocorre em Las Vegas, vemos que o personagem estava a ponto de esmurrar um banqueiro que se vangloria do jeito que ficou rico.

A Grande Aposta (The Big Short)
McCkay continua divertindo os espectadores sem esquecer-se da realidade. Ainda na primeira metade do filme, quando Baum e seus sócios começam a pesquisar in loco grandes propriedades em bairros de alto padrão praticamente vazios, conhecemos um homem que paga seu aluguel em dia, mas que não faz ideia como o dono da casa está financeiramente. Um pouco mais a frente os amigos Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock) entram na jogada e percebem que podem ganhar muito dinheiro. E quase inocentemente começam a dançar de alegria e são repreendidos por Ben Rickert (Brad Pitt) que explica para os jovens – consequentemente para nós – a real dimensão da crise.

Determinado momento uma frase sem autor conhecido aparece na tela: “A verdade é como poesia, e a maioria das pessoas detesta poesia”. A Grande Aposta fala algumas verdades, coisas que nós, dentro de um relativo conforto, preferimos ignorar. É uma história sobre ganância e de como podemos ser facilmente enganados por aqueles que nunca vão sofrer numa crise. Criamos ódio desses personagens tão torpes, principalmente no tom mais sombrio do terceiro ato. E o que mais faz mal é saber que nada mudou. Talvez produções que atinjam as massas possam abrir os olhos de mais gente. Mas a verdade é que é preciso muito otimismo para esperar isso.


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DIPLOMACIA (Diplomatie)


por Antonio Carlos Egypto

O novo filme do grande diretor alemão Volker Schlöndorff, chamado “Diplomacia”, é baseado na peça teatral do mesmo nome de Cyril Gely, que fez o roteiro do filme, em parceria com o diretor.

O assunto é o mesmo do filme de René Clément, Paris Está em Chamas?, lançado em DVD há pouco tempo. Esse filme é de 1966, mas só o vi recentemente. É curioso ver o tema da explosão de Paris por Hitler retomado neste Diplomacia, de 2014, que chega agora aos cinemas.

Segunda Guerra Mundial. 25 de agosto de 1944. Na Paris ocupada pelos alemães, a entrada dos Aliados para a retomada da cidade é iminente, assim como o fim da guerra, que está próximo. Ela está perdida para o Eixo, capitaneado pela Alemanha. O general Dietrich von Choltitz (Niels Arestrup), que coordena as forças de ocupação alemãs em Paris, é fiel ao Terceiro Reich e recebe ordem expressa, vinda de Hitler, para explodir a capital da França, incluindo suas pontes, monumentos e museus. A ideia era oferecer aos vencedores terra arrasada. Sabemos o final da história, mas o filme de Schlöndorff constrói um belo suspense com isso. O que fará o general? Está tudo pronto para explodir, fartamente carregado de dinamite, falta só a ordem para a explosão. Ela virá?

O que acabará determinando tal decisão é o relacionamento do general com o cônsul-geral da Suécia em Paris, Raoul Nordling (André Dussolier). Do embate intelectual entre ambos far-se-á a luz. 

O filme se centra na relação dos dois personagens, como se ela estivesse ocorrendo toda na noite fatídica da decisão. As cenas originais de rua servem apenas de elemento ilustrativo. É do confronto dos dois que se alimenta todo o filme. Em econômicos 88 minutos, acompanhamos toda a evolução da conversa que colocava em jogo um dos maiores patrimônios culturais da humanidade e vidas humanas em profusão. Os dois protagonistas, atores brilhantes, que já haviam vivido os mesmos papéis no teatro, em 2011, carregam magistralmente a trama.

André Dussolier, que faz o cônsul-sueco, é um dos atores que mais atuaram com Alain Resnais, que o tinha como um de seus prediletos. Mas trabalhou também com François Truffaut, Claude Chabrol, Claude Lelouch, Erich Rohmer, Coline Serreau, Bertrand Blier e muitos outros. Niels Arestrup, o general, trabalhou com Chantal Akerman, Claude Lelouch, Marco Ferreri, István Szabó, Jacques Audiard, Steven Spielberg, Bernard Tavernier e, também, Alain Resnais. Outra bela trajetória. Com atores assim, o resultado é eletrizante. Mesmo tudo se passando basicamente entre as paredes da sala de trabalho do oficial nazista.

Em comparação com a superprodução francesa Paris Está em Chamas?, que reuniu um dos maiores elencos e participações especiais às pencas, a economia de recursos e de tempo de Diplomacia é incrível. René Clément contou com roteiro de Gore Vidal e Francis Ford Coppola. Teve no elenco Jean-Paul Belmondo, Charles Boyer, Alain Delon, Kirk Douglas, Glenn Ford, Yves Montand, Anthony Perkins, Michel Piccoli e até Orson Welles, no papel do cônsul sueco. Precisou de 165 minutos para registrar o mesmo fato. Mas escolheu outro caminho: o do minucioso detalhamento das batalhas de rua na Paris em que a Resistência tentava reconquistar pontos estratégicos, à espera do embarque aliado. Interessante do ponto de vista histórico, com base nos fatos e resgate de imagens originais em grande quantidade, mas longo e cansativo. Diplomacia, ao contrário, foca no embate razão e emoção, no seguir ordens absurdas sem questioná-las, ou do medo de enfrentá-las ou, ainda, da coragem de fazê-lo, dos riscos a correr, da capacidade de avaliar a monstruosidade que estava em jogo.

Volker Schlöndorff, em O Mar ao Amanhecer, de 2011, já se debruçava sobre a questão humana que a guerra abala e destrói de forma absurda, sem falar na sua obra-prima, O Tambor, de 1979, em que um menino grita e bate um tambor para enfrentar os absurdos da guerra e da vida. Seu estilo contundente de filmar nos obriga a encarar realidades estranhas e desagradáveis. E constrói um forte humanismo como resposta.


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ATÉ QUE A SORTE NOS SEPARE 3 - A FALÊNCIA FINAL.


por Beto Besant

Numa época em que se discute lei de cotas pra filmes brasileiros, em que distribuidoras fazem um "acordo de cavalheiros" de limitar a quantidade de salas a filmes estrangeiros - logo quebrada pelo blockbuster Velozes e Furiosos 7 -  a chegada de uma franquia de tanto sucesso é extremamente oportuna.

Até que a Sorte nos Separe apresenta sua terceira parte - o que por si só já é um grande feito - uma vez que isso nunca ocorreu no cinema nacional e tanto se discute o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica brasileira. E chega em grande estilo: cerca de 900 salas - o maior lançamento de um filme nacional da história - o que prova que o filme ainda goza de muito prestígio e credibilidade. A sequência conseguiu ser bem sucedida em todos os obstáculos que enfrentou. Se atualmente o ator Leandro Hassum é praticamente sinônimo de fartas bilheterias, na época do primeiro filme isso ainda era uma incógnita. Foi a dupla Paulo Cursino (roteirista) e Roberto Santucci (diretor) que "inventou" o fenômeno Hassum, obviamente identificando o talento à época ainda velado. Até que a Sorte nos Separe (2012) foi a maior bilheteria do ano, atingindo três milhões e meio de espectadores.

Em Até que a Sorte nos Separe 2 (2013), a produção teve que substituir Danielle Winits por Camila Morgado no papel de Jane - mulher do protagonista Faustino (Leandro Hassum). O filme também foi a maior bilheteria do ano, com cerca de quatro milhões de espectadores.

Nesta terceira parte, anunciada como o episódio final, tiveram que superar a mudança do protagonista - que emagreceu setenta quilos após uma cirurgia no estômago - através de uma bela "sacada" de Cursino. Após duas partes onde o protagonista enriquece no início e passa o filme inteiro gastando a fortuna, o filme conseguiu se reinventar através de vários "pontos de virada" (é como roteiristas se referem aos momentos em que a história toma outro rumo). 

Como um filme feito para atingir o grande público, a trama segue padrões do cinema clássico, com as limitações que um campeão de bilheteria deve seguir para não desagradar seu público. Mesmo assim, tem a ousadia que já dava sinais em outro trabalho da dupla: o filme O Candidato Honesto (2014).

Se lá Cursino e Santucci já ousaram em fazer diversas piadas políticas e críticas sociais, em Até que a Sorte nos Separe 3 eles "colocam o dedo na ferida" com muito mais veemência, e se valem do pouco tempo que tiveram pra fazer o filme - as filmagens terminaram em outubro e o lançamento aconteceu em dezembro - pra criticarem o atual momento político do país. Algo que normalmente só programas semanais de TV conseguem.


Mas vamos finalmente à história. O filme começa com Faustino (Leandro Hassum) no programa do Luciano Huck disputando um milhão de reais com André Marques para ver quem mais emagreceu. Ao contrário do que o público imagina, o protagonista não ganha o dinheiro e continua trabalhando como ambulante. Atropelado, passa algum tempo desacordado e quando recobra a consciência descobre que o rapaz que o atropelou (Bruno Gissoni)  é filho do homem mais rico do Brasil e quer se casar com sua filha Teté (Júlia Dávila). O milionário oferece um emprego com alto salário e Tino termina por falir o país.

O milionário - uma clara alusão a Eike Batista - é o tipo vaidoso, que usa peruca e tem um carro na sala, além de uma mulher linda (Emanuelle Araújo) uma ex capa de revistas masculinas que usa uma coleira com seu nome. Além disso, o protagonista vai a Brasília e conversa com a presidanta - como é chamada por Tino - interpretada por Mila Ribeiro, que se não é idêntica à presidente da república, tem a voz absolutamente igual.

Na passagem pela capital federal, são feitas piadas com as famosas "pedaladas", com a mandioca e até mesmo com o executivo Nestor Cerveró e seu olho caído. Interpretado de forma hilária pelo bissexto Bemvindo Siqueira.

Mais do que a história, Até que a Sorte Nos Separe 3 carrega diversos méritos e é um dos principais pilares para o fortalecimento do cinema nacional.
Sua bilheteria fantástica - em 15 dias atingiu a marca de dois milhões de ingressos vendidos - mostra que a franquia continua "com tudo" e merece um "Até que a Sorte nos Separe 4". Quem sabe com o subtítulo de A Nova Derrocada.



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OS OITO ODIADOS (The Hateful Eight)

Os Oito Odiados : Poster

por Tiago Lira


Os Oito Odiados é longo, não economiza película – literalmente, já que a produção foi original concebida em 70mm, apesar de não podermos vê-la assim no Brasil. Por isso acaba sendo contemplativo e até difícil de acompanhar. Porém, é uma produção interessante desde a tipografia usada no título do filme, na épica trilha de Ennio Morricone, no desenvolvimento dos personagens pelos diálogos e no belíssimo contraste do vermelho com o branco. O clima de mistério envolvente nesse faroeste invernal – algo bem incomum no gênero – não é o melhor trabalho do diretor, mas ainda é um bom filme com o já tradicional humor e ação de Quentin Tarantino.

A cena inicial do filme trem aproximadamente cinco minutos. É um plano longo mostrando uma carroça vinda ao longo de uma imensidão branca à enquanto vemos os créditos do filme. Já é suficiente para entender o clima que, apesar da contemplação e do símbolo da figura de Cristo enterrada na neve, poderia sim ser diminuída. Se há algo para se reclamar do filme é esse exagero dos seus 160 minutos – algo que Bastardos Inglórios e Django Livre pareciam não ter.

O que temos a seguir, nesse e no ato seguinte, é um road movie onde Tarantino desenvolve a personalidade distinta de metade dos oito odiados. Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) é mais louca, porém perigosa. Ela é uma mulher tão forte – num sentido mais figurado que literal – que precisar ser presa em correntes. Ainda nessa situação, ela confronta John “O Carrasco” Ruth (Kurt Russell), um caçador de recompensas desconfiado e dono de mais força bruta. O Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) é mais prático e seguro de si e, como vamos entender melhor mais à frente da narrativa, sabe o que precisa fazer para sobreviver num país assolado pelo racismo.

Chris Mannix (Walton Goggins) aborda a carroça durante essa viagem, servindo de elo entre atos ao se apresentar como o novo xerife de Red Rock, onde Ruth será enforcada e Ruth receberá sua recompensa. É nesse momento em que Tarantino planta habilmente a semente da desconfiança dessas pessoas. Elas estão lá por ser o que dizem ser e é uma incrível coincidência estarem ali? Com isso, você volta alguns minutos atrás e se pergunta até se os motivos de Warren são verdadeiros.

Com os novos personagens isolados começamos a pegar as inspirações de Tarantino para essa nova produção. Ecos de O Enigma do Outro Mundo e o romance E Então Não Sobrou Nenhum (de Agatha Christie, também conhecido como O Caso dos Dez Negrinhos) estão lá para quem quiser ver. Bob (Demián Bichir), Oswaldo Mobray (Tim Roth), Joe Gage (Michael Madsen), e Sanford Smithers (Bruce Dern) podem ser ou não o que dizem. E essa duvida vai corroer não só Warren, Ruth e Mannix, mas também o espectador, auxiliado por uma narração off, mas sutil, que mostra detalhes que perdemos por causa de uma discussão entre o soldado negro e Smithers, um general confederado e tão racista quanto o novo xerife.

Outra grande qualidade da produção, se não for a maior, é a ausência de heróis. Não quer dizer que o protagonista – e que desafio é determinar quem seja – não passe pela chamada “jornada do herói”, mas cada um dois oito são bem desgraçados, cada um a sua maneira. São personagens tão detestáveis que você dificilmente gostaria de viajar com eles, o que se reflete na hesitação de O.B. Jackson (Parks) em receber mais gente em sua carroça.

Em outros filmes Tarantino usou a figura do oprimido contra o opressor – uma mulher em Kill Bill, os judeus no já citado filmes de 2009 – e aqui repete o papel do negro como já tinha sido em 2012. Não é à toa quando digo que esse filme é uma representação de parte da história dos EUA, o que fica bem explícito em um dos diálogos de Warren com Ruth sobre uma carta que o antigo combatente sempre leva consigo, escrita pelo então presidente Abraham Lincoln. E também no embate que Warren tem com Smithers, mostrando o que um negro tem que fazer para sobreviver na América – mostrando o grande ator que o personagem é.

Com boas surpresas e cheio de diálogos inteligentes, Os Oito Odiados tem alguns problemas na escolha do diretor de alongar demais a narrativa, o que pode tornar a experiência maçante para alguns – provavelmente o montador Fred Raskin não tem o poder que Sally Menke tinha no diretor. No entanto, demora bem pouco para as cenas interessantes acontecerem – a cena com Warren sentado em três cadáveres empilhados na neve enquanto espera que alguma carroça apareça é impagável. É uma eficiente mistura de violência, comédia e tiros. Poderia ser menos violento? Sim, mas não seria Tarantino.


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VICTORIA

por Beto Besant

Vez por outra surge um filme tentando inovar a linguagem cinematográfica, seja pela forma de atuar, de roteirizar ou mesmo de se montar o filme. Neste caso, a “não-montagem” do filme. Pois, ao invés de usar vários planos que se alternam – como quase todos os filmes – aqui não há cortes, tudo é filmado sequencialmente e sem cortes, da forma que assistimos. É o chamado plano-sequência.

Como estratégia de marketing, foram amplamente divulgados os 134 minutos ininterruptos. Obviamente, isso só tem efeito para estudantes de cinema ou cinéfilos, pois o público médio nem repara nos cortes. Exceto nos casos em que a ordem cronológica é bruscamente interrompida – como em Pulp Ficition, 21 gramas, Babel, etc. Inclusive, o cinema clássico presa exatamente por fazer com que o público não perceba os cortes e assim se identifique mais facilmente com a história. 

A forma de se filmar - alardeada pelos distribuidores - acaba por ofuscar os méritos do filme. Prova disso é que este texto não pode falar do filme sem antes mencionar a técnica.


Na trama, Victoria (Laia Costa) é uma espanhola que vive há três meses na Alemanha. Sem amigos, vai até um clube noturno onde conhece quatro rapazes: Sonne, Boxer, Blinker e Fuss. Sem outra opção, a garota decide acompanhar os rapazes delinquentes pela noite de Berlim. Logo surge um interesse mútuo por Sonne (Frederick Lau), uma mistura de Marlon Brando com Gary Oldman, que demonstra ser o mais “ajuizado” do grupo - o que não garante muita coisa – e preocupado com o bem estar da garota.

No primeiro terço do filme – um pouco lento – fica a impressão errada de que o filme ficará apenas mostrando um retrato da juventude já abordado em outros filmes como Kids (1995) e Trainspotting (1996), mas em vez disso, o filme vai se tornando gradativamente mais tenso e levando a protagonista a uma situação cada vez mais descontrolada e surpreendente que - apesar da limitação de ritmo imposta pelo plano-sequência – é capaz de nos prender na poltrona e não perceber o tempo passar.

Bem dirigido pelo também ator Sebastian Schipper (Corra Lola, Corra), Victoria tem como suas maiores virtudes o bom elenco – sabiamente conduzido por Laia e Frederick – que conseguiu dar muita naturalidade aos improvisos feitos em apenas 12 páginas de roteiro. Tecnicamente, o mérito maior fica na mis en cene criada pelo diretor e habilidade na câmera do diretor de fotografia.

Mais uma boa experiência do cinema alemão, que é um dos mais sólidos e contundentes do planeta. Imperdível.


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NO CORAÇÃO DO MAR (In the heart of the sea)



Por Tiago Lira

Uma história com um personagem tão grandioso parece ter sido feita para ser apresentado na tela do cinema. No Coração do Mar é uma produção visualmente arrebatadora, assim como o seu design de som e tantos outros elementos como a fotografia e o design de produção. A base para a história de Moby Dick é de uma época nefasta, que dava glórias em caçar esses seres tão belos. Na narrativa, Ron Howard conta aventuras, soberbas, desesperos e redenções, pintando a tela do cinema como uma pintura bucólica e triste na maior parte do tempo. Se era melhor contar o mito à realidade, como diz o ditado popular, fica a cargo do espectador. Agora, por causa da popularidade do cinema, podemos ter os dois.

Howard monta um cenário muito rico visualmente na visita de Herman Melville (Ben Whishaw) a Thomas Nickerson (Brendan Gleeson). Um está buscando inspiração para a história que viria a ser Moby Dick; o outro, não querendo contar essa história, se esconde por trás de garrafas vazias que estão assim pelo fato do marujo beber todas, para depois transformá-las em arte com os navios em miniatura que coloca dentro delas. Interessante que, simbolicamente, Nickerson guarda sua vida dentro das garrafas, assim como esses pequenos navios, a ponto de não compartilhar suas experiências com ninguém, nem mesmo a esposa (Michelle Fairley).

Dividindo com eficácia os três atos da história, Howard leva a audiência junto com o Essex nos seus momentos de glória e desespero. Sabendo que o interessante é a aventura no mar o roteiro leva pouco tempo em solo, apenas o suficiente para conhecermos os motivos de Owen Chase (Chris Hemsworth) e George Pollard (Benjamin Walker) tem para embarcar e, eventualmente, voltar para casa. Owen será pai logo e tem que aceitar outro trabalho como imediato por causa de uma promessa quebrada. George se torna o capitão do Essex tão somente por seu nome. O diretor frisa bem a diferença entre os personagens quando percebemos as cicatrizes e marcas que Chase carrega em oposição ao seu capitão de cara mais limpa.

O início então é mais lento, como deveria ser uma longa jornada mar à dentro, o que dá tempo de incluir algumas tomadas inexpressivas como os donos da nave observando seu negócio velejando para longe. Um problema bem grave e que acompanha não só esse início, mas praticamente toda a história, é a música de Roque Baños. Não por não ser marcante, mas por estar presente em praticamente todos os momentos da narrativa. Durante os quase 120 minutos de projeção, a trilha do compositor espanhol não sairá dos seus ouvidos, mostrando que não se soube usar o silêncio, o que também é culpa de Howard.

Voltando aos temas visuais, a fotografia de Anthony Dod Mantle traz oposições nos diferentes mundos. Usando uma paleta de cores variada, que passa do dourado até o cinza, o diretor de fotografia conta a história também por cores. Num dos extremos vemos cores fortes na casa de Owen e sua esposa, o mesmo tom de quando a tripulação está no mar e consegue sua primeira caça. No meio do caminho há um tom ainda amarelado, porém pálido, que aparece no marasmo do Essex ficar meses sem avistar uma baleia sequer. Já o cinza está predominantemente na cidade tão avessa a Owen.


E é importante mencionar que até metade do filme não conhecemos a protagonista – contada do ponto de vista do jovem Nickerson (Tom Holland). A Grande Baleia branca é representada como uma verdadeira força bruta da natureza. Apesar da cor predominante clara, os responsáveis pelo seu design deixaram marcas que lembram camuflagem, como se ela estivesse preparada para a guerra. Além das várias feridas que apresenta ao longo do gigantesco corpo. E é impossível deixar de notar como esse episódio influenciou o jeito de contarmos histórias até hoje. Além de inspirar o próprio Herman Melville a escrever seu livro mais famoso, podemos encontrar ecos até mesmo em filmes como Rambo – a frase do filme de Stallone “é ele que está nos caçando” tem inegável inspiração na epopeia da destruição do Essex.

Celebrando algo odioso – a glorificação é errada, mas é um retrato da época – e escorregando em tornar os personagens mais carismáticos No Coração do Mar se destaca menos que o conto que inspirou. Os detalhes da produção valem a pena ser apreciados e serve também de estudo de um estudo de caso enquanto ouvimos um papo marítimo que parece realista e alguns detalhes da extração do óleo de baleia. As partes mais interessantes ficam por conta dos ataques do cachalote, sem dúvida. É uma pena que o visual supere a história em si, que perde um pouco de credibilidade até quando insiste em adiar a decadência do visual de um personagem que ficou meses à deriva apenas pela conservação da sua imagem de galã. Não é exatamente uma depreciação, mas ficou menos cru e realista que o resto do filme tanto pregou.


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O CLÃ (El Clan)


por Beto Besant

Como diz um famoso slogan: "Quando a realidade supera a ficção, está na hora de fazer documentário"O novo filme do cineasta argentino Pablo Trapero conta uma história tão absurda, que se não fosse baseada em fatos verídicos, iriam acusar de inverossímil. E se fosse então uma produção nacional, aí sim que acusariam de não fazer o menor sentido.

O Clã conta a vida de uma família tradicional, com crianças pequenas e filhos adolescentes cujo patriarca  - Arquímímedes Puccio (Guillermo Francella) - é um militar que pratica sequestros e mata após o pagamento do resgate. E tudo sob a conivência do governo e polícia local num período em que a ditadura militar havia acabado muito recentemente na Argentina (início dos anos 80).

São tantos pontos assustadores que até fica difícil definir qual o mais grave. Por exemplo: os sequestrados são pessoas mais abastadas do convívio da família. E se já é preciso ser bastante frio e calculista pra cometer um sequestro (seguido de morte), mais grave ainda quando tudo isso acontece com pessoas que se tem uma certa "amizade".


Outro fato assustador é que o cativeiro seja o quarto de hóspedes da própria residência. O diretor apresenta muito bem isso numa cena em que a família assiste TV enquanto ouve-se gemidos vindos do quarto.

Uma história tão assustadora foi muito bem roteirizada e dirigida por Trapero que consegue mostrar as contradições da família tradicional, religiosa e carinhosa sem didatismo e formar um elenco coeso, liderado pelo comediante Francella. Com uma bela montagem, seu ritmo consegue manter a tensão do espectador durante todos os seus 110 minutos. É muito interessante ver - ao final do filme - imagens dos personagens reais e saber o que aconteceu com cada um.

Com o espanhol Pedro Almodóvar como coprodutor, O Clã atingiu a segunda maior bilheteria do cinema argentino e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Trata-se de cinema argentino da melhor qualidade, como costumam ser o filmes argentinos que chegam por aqui. Mas apesar de todos os méritos, O Clã é interessante porém está longe de ser sensacional.


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MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA (Macbeth)

por Antonio Carlos Egypto

Macbeth é uma das mais importantes peças de William Shakespeare (1564-1616). Escrita provavelmente entre 1603 e 1607, foi apresentada pela primeira vez nos palcos em 1611. E é continuamente reencenada em todo o mundo. Agora mesmo, em São Paulo, há uma montagem teatral de Macbeth em cartaz, até o final de janeiro de 2016, dirigida por Ron Daniels, com Thiago Lacerda e Giulia Gam nos papéis principais.

No cinema, Macbeth já foi filmada por mestres da sétima arte, como Orson Welles, em 1948, ou Roman Polanski, em 1971. Akira Kurosawa também a adaptou, no filme Trono Manchado de Sangue, em 1957. Temos, em 2015, uma nova versão cinematográfica, que vem do Reino Unido, sob a direção de Justin Kurzel e que faz jus à importância e ao significado cultural que Macbeth ostenta.

A nova versão é bem sofisticada em termos visuais. Explora a baixa luminosidade de largas paisagens escocesas e envolve as batalhas em densa neblina. Esse clima, onde prevalecem as brumas, dá conta da escuridão de sentimentos que acompanha a matança pelo poder. E não só a das batalhas, mas a de todo o reino, que se mantém e se renova pela violência. 

Se é de sangue que se trata, o filme explora, em belos enquadramentos, cenas em vermelho. Sombrio, mas também luminoso. O recurso da câmera lenta e do congelamento da imagem evita que um excesso de sangue se exponha desnecessariamente. E simplifica a filmagem de algumas cenas de batalhas.


Silhuetas se destacam no cinzento da névoa, no entardecer, no cromatismo rouge. A chuva cumpre seu papel na plasticidade dos planos retratados.

Bruxas, que aparecem e desaparecem, conduzem a história por meio de seus presságios e antevisões, que falam da conquista de grandes poderes e de elementos aparentemente mágicos que podem trazer derrotas. Os personagens construirão com planejamento, artimanhas, medo e espadas, os vaticínios das bruxas.


Por poder se mata, se mente, se deteriora o humano. Onde estarão os limites, pergunta Shakespeare? Nada mais atual.

Macbeth, bem interpretado por Michael Fassbender, grande ator contemporâneo, e Lady Macbeth, pela versátil atriz francesa Marion Cotillard, protagonizam o trágico casal real que atravessou séculos de história para nos contar da íntima conexão entre poder e violência e das terríveis consequências que advêm deles. O que, infelizmente, testemunhamos todos os dias neste atormentado século XXI.


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TUDO QUE APRENDEMOS JUNTOS

por Beto Besant

Nova produção da Gullane, Tudo que Aprendemos Juntos é uma clara tentativa de fazer cinema popular mas que também agrade aos festivais. Para isso, convidaram seu principal parceiro, o diretor e roteirista Sérgio Machado e a renomada autora de novelas Maria Adelaide Amaral para que fosse adaptada a peça teatral Acorda Brasil, do empresário Antônio Ermírio de Moraes.

Também assinam o roteiro o cineasta Marcelo Gomes e a roteirista Martha Nehring.

Na trama, Laerte (Lázaro Ramos) é um violinista virtuose que - após ser reprovado na audição para a orquestra da OSESP - é "forçado" a dar aulas na Comunidade de Heliópolis para poder pagar suas contas. O professor tem um choque imediato ao deparar-se com aulas ministradas numa quadra ao ar livre, com o baixo nível técnico dos alunos, com a falta de educação e modos deles e com o desrespeito com que tratam a si mesmos e ao professor.

Como não poderia ser diferente, aos poucos o grupo vai se afeiçoando ao mesmo tempo em que os problemas da vida na favela invadem e dificultam o aprendizado.

Partindo do clichê filme de professor que leciona para alunos pobres e de realidade violenta, Tudo que Aprendemos Juntos consegue escapar de parte deles. O primeiro deles deve-se ao fato do professor não ser um idealista (na verdade, Laerte não quer lecionar e passa a detestar quando vê as condições que terá que enfrentar). Apesar do desfecho melodramático, o filme foge do clichê felizes para sempre.


A escolha de Lázaro para o papel faz com que seja impossível dissociar o personagem ao clássico Ao Mestre com Carinho (1967). Apesar de não estar brilhante, o ator está bem. A direção de Sérgio Machado também é competente, pois além de desviar de alguns clichês, consegue ser mais "sóbrio" evitando o melodrama óbvio. 

O elenco de "não atores" e de atores iniciantes é bem coeso e interessante. O trabalho de preparação de Fátima Toledo - que durou um ano - mais uma vez obtém um bom resultado.

Se o roteiro de Tudo que Aprendemos Juntos possui alguns problemas, também possui o mérito de não demonizar a criminalidade nem colocar favelados como "coitadinhos" ou os mais abastados como vilões.

O diretor conta que optou por filmar em película (segundo o produtor Fabiano Gullane, o último filme da América Latina feito de maneira analógica) a pedido do diretor de fotografia Marcelo Durst. Dessa forma, o resultado foi uma fotografia mais "crua" e escura - da forma que havia pedido o diretor - pois ele explicou que na favela há pouca iluminação.

O filme ainda tem as participações dos cantores Criolo e Happin Hood, que não comprometem.

Em tempos onde todos estão acostumados à textura do digital, é interessante poder voltar a ver um filme em película.


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DOIS AMIGOS (Les Deux Amis)


por Antonio Carlos Egypto

Louis Garrel talvez seja o jovem ator francês de sua geração (em torno dos 30 anos de idade) de maior sucesso no mundo do cinema. Agora ele, além de atuar, dirige seu primeiro longa-metragem. E veio ao Brasil para divulgá-lo. É Dois Amigos, um filme sobre relacionamentos humanos que se mostram complicados porque há segredos, subentendidos, falta de sinceridade e medo, nos contatos. Na base deles está o desejo, a possibilidade do envolvimento amoroso e o que, por algum motivo, não pode acontecer.



A temática, claro, tem tudo a ver com a herança da nouvelle vague. O jeito de filmar, cool e próximo dos personagens, também. Afinal, Louis é filho do grande cineasta Philippe Garrel, com quem trabalhou como ator em filmes que retratam as muitas formas de vivenciar o amor e seus problemas, como Amantes Constantes (2005), Fronteira da Alvorada (2008), Um Verão Escaldante (2011) e Ciúme (2013). 

Ator frequente também em filmes de Christophe Honoré, Louis Garrel divide com ele o roteiro de Dois Amigos. Honoré costuma trabalhar com personagens em busca de amor e afeto, mas um tanto estranhos e desencontrados. Ou bizarros, para ficar num termo frequente em língua francesa. Em Paris (2006), Canções de Amor (2007), A Bela Junie (2008) e As Bem-Amadas (2011) são exemplos de filmes que Honoré dirigiu, tendo Louis Garrel no elenco.


A experiência do ator e essas influências são muito positivas no que se vê em Dois Amigos. O filme se centra em dois personagens masculinos bem construídos. Frágeis, carentes, dependentes um do outro e com uma alma feminina, convivem com uma mulher forte, intensa e algo misteriosa, que luta para sobreviver, enquanto aguarda sair da prisão. Já está em regime semiaberto, trabalhando fora, mas isso ainda limita muito sua vida. O papel é da atriz iraniana Golshifteh Farahani, que já mostrou seu talento em filmes como Procurando Elly (2010), no Irã, e em Pedra de Paciência (2014), no Afeganistão. Ela vive na França e nem pode pensar em voltar a seu país de origem, depois que posou nua para uma revista. A propósito, ela está linda e sensual em Dois Amigos, é o grande destaque do filme. Uma estrela.

Além de Louis Garrel, que consegue dar conta de dirigir e atuar, está no filme Vincent Macaigne, o amigo, em belo desempenho. Ambos girando em torno da figura marcante da jovem mulher que, na prática, comanda as ações e dá luminosidade ao filme.




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BEM CASADOS


por Beto Besant

O mercado de comédia nacionais divide opiniões: o público adora, por outro lado os mais puristas criticam a qualidade de seus roteiros e falta de originalidade. Nada que não acontecesse nos áureos temos de Atlântida versus Vera Cruz.

Lançado sob a chancela de "comédia" - talvez para aproveitar o bom momento das atuais bilheterias do gênero - Bem Casados se enquadra mais na categoria Comédia Romântica.


A mais nova produção do cineasta Aluízio Abranches (de Um Copo de Cólera de 1999 e Do Começo ao Fim de 2009) conta a história de Heitor (Alexandre Borges) - um fotógrafo de casamento conquistador e solteirão convicto - que conhece "quase" por acidente a personagem Penélope (Camila Morgado) - uma solteirona e independente que busca vingança de seu ex-amante, ao impedi-lo de se casar. Obviamente, surgirão muitas confusões causadas pelos protagonistas apoiados por Alice (Bianca Comparato) - fotógrafa da equipe de Heitor, e Lili (Letícia Lima) - empregada doméstica de Penélope que age como se fosse a patroa.

O filme é bastante irregular, desenvolvendo subtramas dispensáveis - como a participação de Cristine Fernandes no papel de um ex-romance do protagonista - e um casal que não convence: Alice e Fernando (Fernando São Tiago). A fotógrafa tem um jeito masculinizado que deixa dúbia sua sexualidade, bem como seu par romântico, que interpreta um garçon que entra para a equipe mas numa cena em que ensina o ofício a outro garçon sugere "algo a mais" entre os dois.

Outro problema é o subaproveitamento de Letícia Lima, que tem uma pequena participação mas faz com que o filme ganhe novo brilho a cada cena sua. Camila Morgado está muito bem num papel cômico porém não caricato, assim como Alexandre Borges (num personagem ao qual está mais habituado).

Bem Casados fica no limiar entre comédia e comédia romântica, e teria sido melhor se o diretor (que também assina o roteiro ao lado de Fernando São Tiago) tivesse se definido pela segunda opção.

O filme parte de uma premissa interessante mas perde-se no seu desenvolvimento, deixando passar a oportunidade de abordar, por exemplo, as dificuldades que os profissionais de casamento enfrentam com contratantes que não separam um local para se estabelecerem, não se preocupam com sua alimentação e coisas do tipo. Algo que, vindo de um roteirista e diretor que tem um passado como fotógrafo de casamento, seria de se esperar.

Apesar de não ser um grande filme, é bem agradável de se assistir e um grande lançamento: 450 salas em todo o país.


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CALIFÓRNIA


por Beto Besant

A cineasta Marina Person - mais conhecida pelos jovens como VJ nos tempos áureos da MTV - apresenta seu primeiro longa-metragem de ficção e mostra que o sangue dos Person (é filha do cultuado cineasta Luiz Sérgio Person) possui talento hereditário para cinema.

Califórnia conta a história de Estela (a estreante Clara Gallo), uma adolescente que tem em seu tio Carlos (Caio Blat) - um repórter e correspondente musical - sua maior referência, com quem sonha conhecer a Califórnia, onde Carlos mora. Seu pai (Paulo Miklos) é um militar que a cria com a rigidez da profissão. Sua ida ao exterior é adiada por conta da vinda do tio para o Brasil.

Obviamente, um filme sobre adolescentes não poderia tratar de outro assunto senão as primeiras paixões da garota e dificuldade em se relacionar com o mundo. Aqui ela se divide entre sua paixão por Xande (Giovanni Gallo) e JM (Caio Horowicz). O primeiro faz o tipo "galã pegador" e o segundo o tipo "exótico e alternativo".

A trama é toda ambientada na década de 80 e fica impossível não buscar elementos autobiográficos, uma vez que se passa na época em que a diretora era adolescente e a inegável semelhança dela com a atriz.

Para quem viveu os anos 60 é impossível não sentir-se saudosista ao ouvir hits da época de bandas como The Smiths, David Bowie, The Cure, Titãs, Kid Abelha, Metrô, Blits, entre outros.

O filme é bem dirigido e Marina extrai boas interpretações de Clara Gallo e Caio Horowicz - premiados respectivamente nos festivais Mix Brasil e Festival do Rio - mas é Caio Blat que brilha em sua interpretação contida e delicada, nunca indo para o caricato. A cada aparição do ator o filme cresce, e fica nítida a sensação de subaproveitamento de seu talento.

Califórnia é uma bela experiência de se abordar a adolescência, e se não evita todos os clichês, escapa de boa parte deles. Apesar de estar longe de se tornar um ícone do gênero - como é o caso do filme As Vantagens de Ser Invisível (2012) - ainda assim é um filme delicioso de se assistir e merece muito ser visto. 


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Coletiva de imprensa: A FLORESTA QUE SE MOVE

Veja como foi a Coletiva de Imprensa do filme A Floresta que se Move. Com os atores Gabriel Braga Nunes, Ana Paula Arósio, Nelson Xavier, Fernando Alves Pinto, o diretor Vinícius Coimbra e a produtora Elisa Tolomelli.


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Entrevista: DEPOIS DE TUDO

Beto Besant entrevista os atores Otávio Müller, Felipe Cardadeiro e Maria Casadevall, do filme Depois de Tudo.


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