Blog criado pelo cineasta Beto Besant para comentar os filmes que estão em cartaz.
Fiquem à vontade para deixar comentários e sugestões.
Sejam todos bem vindos!!!
A música tem forte presença na memória emotiva de quase todos. Frequentemente somos pegos de surpresa por uma música que nos leva a um tempo que gostaríamos de congelar. Porém existem artistas que superam qualquer barreira, passando a fazer parte de nossas vidas como se tivessem laços sanguíneos conosco. E Ney de Souza Pereira, conhecido como Ney Matogrosso, surge na telona com uma força raramente vista.
Olho Nu, documentário de Joel Pizzini, trás raras imagens de arquivo do artista que somam cerca de 300 horas e foram cuidadosamente guardadas em quatro décadas de carreira. Ele conta que sempre que se apresentava na TV pedia uma cópia do material.
No ano passado, Ney doou todos os seus figurinos guardados para o Senac, pois sabia que assim teria mais condições de restauro e manutenção, e por acreditar que seu acervo estaria melhor se exposto para quem tivesse interesse. O mesmo fez com suas imagens, que colocou à disposição do diretor para a realização do filme, e comenta que gostaria que a vasta quantidade de imagens gerasse outros filmes.
Como já era de se esperar, o documentário tem muita música, além dos muitos depoimentos do artista - quase como num musical. O maior problema é que não segue uma narrativa tradicional, para que o público que não conhece sua história passe a conhecê-la, nem uma narrativa transgressora - maior característica do artista. A impressão que se tem em certos momentos é que a montagem foi aleatória.
Quem conhece a riquíssima história do biografado, sabe que o filme não apresenta 1% dela, que inclui ameaças da ditadura, o convite para formar uma banda internacional que transformou-se na Banda Kiss, a descoberta da bissexualidade, o contato direto com a AIDS, o rápido namoro com Cazuza, drogas, Santo Daime, etc. Foi premiado pelo Voto Popular no Festival In-Edit - São Paulo, provavelmente graças ao fato dele ser um dos únicos casos de unanimidade nacional.
Olho Nu é interessante pelo valor histórico de suas imagens e pela qualidade musical, mas não inova nem apresenta o artista. Apesar disso, a força de sua música e a articulação de seus depoimentos tornam o filme importante de se conhecer.
Muita luminosidade. Sol. Água. Estamos na Praia do Futuro, em Fortaleza. Bela e perigosa. Um salva-vidas, Donato (Wagner Moura), tenta em vão evitar o afogamento de um banhista. A cena que abre o filme e mostra essa luta no mar, entre a vida e a morte, nos indica que muita tensão e muita dor podem vir por aí.
Jesuita Barbosa, Wagner Moura, Karim Ainouz e Clemens Schick
Virá, também, uma história de amor homossexual, que nos remeterá da ensolarada Praia do Futuro para o colorido acinzentado de Berlim no inverno. E conhecemos Konrad (Clemens Schick), piloto alemão, objeto de amor do brasileiro Donato.
Há mais. Em busca não só do amor, mas do risco, da aventura e da liberdade, Donato abandona sua família, deixa para trás o irmão menor, que tinha nele um ídolo: Ayrton (Jesuíta Barbosa). E que, mais crescido, vai cobrar a fatura do abandono que teve de amargar.
Jesuita Barbosa, Wagner Moura e Karim Ainouz
Gente que ama. Gente que perde. Gente que se aventura. Gente que cobra. Gente que se enraivece. Frustrações, decepções, surpresas, arrependimento. É de tudo isso que se trata. O novo filme do conceituado diretor Karim Aïnouz é um trabalho autoral, que penetra nos sentimentos mais fortes e nas relações mais intensas. Valendo-se de uma câmera que invade e escancara a intimidade. Também dos corpos, mas principalmente das emoções. Com interpretações viscerais de atores que nem sempre falam a mesma língua (é uma coprodução brasileira-alemã) ou que juntam muita experiência com o vigor da juventude em que a experiência começa a aflorar. Com muito ensaio, o resultado sai muito bom.
De Wagner Moura nem é preciso dizer, é um dos grandes atores da atualidade brasileira. No cinema, ficou famoso como o Capitão Nascimento, de Tropa de Elite 1 e 2, pelo menos para o grande público. Na verdade, é um ator versátil, que dá credibilidade a qualquer papel: aqui, como salva-vidas e gay, ele, mais uma vez, brilha. Até quando emite algumas falas decoradas em alemão, ele é capaz de convencer.
Clemens Schick
O mesmo se dá com Clemens Schick, que atuou com um elenco brasileiro sem falar português. Mas teve poucas falas decoradas aproveitadas. O filme tem pouco diálogo, é muito visual. Ficou com ainda menos diálogos porque nem sempre as falas decoradas passaram pelo crivo do diretor. Melhor assim: é um cinema que mostra, não fica explicando.
Jesuíta Barbosa, que faz o irmão menor do protagonista, é um ator muito talentoso. Já havia demonstrado isso em Tatuagem, de Hilton Lacerda, de 2013. Tem lugar garantido na nova geração de atores brasileiros que começa a se destacar.
É mais um filme brasileiro que ousa sair do que o chamado “mercado” possa esperar. Que está mais interessado em cutucar vespeiros emocionais, refletir sobre caminhos e escolhas e que não se satisfaz em oferecer o conhecido, o já assimilado, o que vende. Busca expressar o que lhe parece importante e relevante. É por aí mesmo.
Na última segunda-feira, dia 5/5 aconteceu na cidade de São Paulo a coletiva de imprensa do filme A Grande Vitória. Estavam presentes o diretor Stefano Lapuzzi Lapietra, os atores Caio Castro, Sabrina Sato, Moacyr Franco, Suzana Pires, Tato Gabus, Felipe Folgosi e o biografado Max Trombini.
ator Felipe Folgosi e o judoca Max Trombini
O filme é baseado no livro Aprendiz de Samurai - de Max Trombini, uma autobiografia sobre o judoca de origem pobre - interpretado por Felipe Falanga e Caio Castro - cujo pai (Domingos Montagner) o abandonou e acaba por extravasar sua energia na arte marcial, tornando-se um dos maiores atletas do país. Seu instrutor é vivido por Gabus, sua mãe por Suzana Pires e seus avós por Moacyr Franco e Tuna Dwek. O próprio Trombini faz uma participação como professor de educação física. Folgosi interpreta um colega do protagonista.
ator Caio Castro e o diretor Stefano Lapietra
Dirigido pelo estreante Stefano Capuzzi Lapietra, A Grande Vitória tem ainda a participação especial de Sabrina Sato e trilha-sonora assinada também pelo estreante maestro João Carlos Martins. O roteiro é assinado pelo próprio Lapietra com Paulo Marcelo do Vale e Wagner Hilário.
Lapietra conta que a ideia surgiu ao ouvir no rádio uma entrevista de Trombini, o judoca, por sua vez, conta que sempre soube que um dia fariam um filme sobre sua história. Tão logo o filme foi acertado, Castro foi contratado: "Quando conheci o Max houve simpatia mútua, então decidi ficar 'na sua cola', chegando a morar com ele por dois meses. Quando conheci sua mãe e ela perguntou por que falávamos igual, aí veio a emoção" - conta Castro.
Trombini revela que ficou surpreso com a dedicação de Castro para o papel: "Ele queria passar pelo treinamento real de um atleta e eu falei que não suportaria, mesmo assim ele insistiu. Além de ter aguentado um treinamento que muitos atletas desistem, na cena final suportou tantos tombos que teve que tomar relaxante muscular para aliviar as dores, e mesmo assim não pediu para que interrompesse as filmagens".
atores Suzana Pires e Moacyr Franco
A atriz Suzana Pires falou sobre a oportunidade de conhecer pessoalmente a mãe de Trombini: "Ela pediu para falar comigo em particular, essa conversa secreta - já que ela não me autorizou revelar o que foi dito - foi importantíssima para a construção do personagem". O cartaz sugere que Sabrina Sato e Caio Castro formam a trama central do filme, porém a participação dela não chega a dez minutos. A Grande Vitória busca um gênero não muito explorado no cinema nacional: o filme de esporte com a auto-ajuda como "pano de fundo".
A identidade de gênero, ou seja, ser e se sentir homem ou mulher, depende não apenas de um corpo biológico masculino ou feminino, mas também de determinantes socioculturais. Se as pessoas ao seu redor o veem de um modo diferente do que você se vê, o que prevalecerá? O que é ser masculino, quando seus modelos de referência são femininos?
É possível questionar os padrões, condutas e vestimentas atribuidos ao seu gênero, sem por isso negá-lo? Ou seja, inovar no gênero? Não é fácil, mas é possível. Vejamos o exemplo do cartunista Laerte, que atualmente se utiliza de um vestuário caracterizadamente feminino, mas não deixou de ser visto como homem, com identidade e nome masculinos, apesar das roupas, digamos, dissonantes. Acontece que ele já tinha uma larga história de vida, vivida e reconhecida no seu meio e pelo público. Sua mudança surpreendeu, foi debatida e assimilada. Se se tratasse de uma criança ou jovem desconhecidos teria sido igual?
Guillaume é um menino, ou poderia ser. Mas não é tratado como tal. A mãe individualiza sua pessoa, distinguindo-a dos outros meninos. Essa é a razão do título Les Garçons et Guillaume, à Table ou, na versão brasileira, Eu, Mamãe e os Meninos. Quem seria eu?
Há mães, como parece ser o caso da de Guillaume, que, após ter dois meninos, desejava uma menina para se espelhar, se identificar com ela. Se a biologia não colaborar, que tal ignorá-la? Guillaume segue o desejo materno e mimetiza de tal modo a mãe que até se confunde com ela, ocupa o seu lugar sem que outros percebam, quando fala sem ser visto. Improvisa com suas roupas de garoto, criando sempre um modelito mais feminino. Inspira-se não só na mãe, mas em outras mulheres que observa e admira, da família ou fora dela.
Isso significa que Guillaume será gay? Não, porque nada disso tem a ver com o desejo sexual pelo mesmo sexo. A identificação com o gênero feminino não significa, necessariamente, a orientação homossexual ou bissexual da atração, do desejo.
O filme Eu, Mamãe e os Meninos lida com isso inteligentemente e cria situações divertidas e inesperadas. O ator, roteirista e diretor Guillaume Gallienne dá um show de interpretação na caracterização desse personagem especial e, também, no de sua mãe. O público francês adorou, mais de 3 milhões de ingressos foram vendidos por lá. A crítica também: o filme foi indicado a dez prêmios César 2014, o Oscar francês. Venceu cinco, inclusive o de melhor filme e melhor ator.
Divertido e inteligente o filme é. Engraçado, nem tanto. Há poucas cenas que provocam o riso, que podem ser capazes de levar o público às gargalhadas. De qualquer modo, é uma boa comédia e tem um enfoque muito interessante e adequado ao tema de que trata. Em tempos em que é raro encontrar uma comédia de qualidade, sem maiores apelações, é bem-vinda. Se todos os prêmios e o sucesso de público se repetirão fora da França, só o tempo dirá. Aparentemente, não é para tanto. Mas vale a ida ao cinema. Há originalidade nesse trabalho.
Nesta segunda-feira 28 de abril aconteceu na cidade de São Paulo a pré-estreia do filme Florbela.
A produção portuguesa foi lançada em 2011, chegando só agora nas telas brasileiras através da distribuidora Imovision. No evento estava presente a protagonista Dalila Carmo, que apresentou seu trabalho para uma sala lotada.
O filme traça um perfil da famosa poeta portuguesa Florbela Espanca e fez muito sucesso com seu público, sendo a produção portuguesa de maior bilheteria do ano nopaís.
A poeta, nascida no final do século XIX, escandalizou a sociedade com atitudes à frente de seu tempo através de uma forte postura feminista, vestindo calças compridas, fumando, se casando diversas vezes, etc.
A trama mostra o final de um dos casamentos de Espanca, seu novo relacionamento e sua forte relação com seu irmão Apeles (Ivo Canelas). Sua instabilidade emocional a impede de escrever, com isso se deixa levar pela vida boemia e romances extraconjugais.
O longa-metragem tem uma belíssima direção de fotografia, uma direção de arte riquíssima, reconstituindo a época retratada com muita perfeição. O roteirista/diretor Vicente Alves do Ó também apresenta um trabalho muito maduro e eficaz, como na cena em que gira a câmera sobre a cabeça da protagonista, traduzindo sua agonia por não conseguir escrever.
O roteiro optou - de forma acertada - por não tentar explicar todos os detalhes da vida de Florbela, uma vez que sua história é muito controversa. Na conversa após a sessão, a atriz comentou que cada biografia da poeta dá uma versão, por isso a construção de um roteiro aberto (quando deixa para o público deduzir o que não é mostrado).
Com belas atuações - principalmente de Carmo e Canelas, apoiado num bom roteiro, a direção competente faz com que o público sinta uma tensão sexual entre Florbela e seu irmão, mas nunca deixando claro o que realmente aconteceu.
O único problema do filme está na montagem de João Braz, que apesar de ter elipses interessantes (quando acontece uma passagem de tempo – neste caso ao passado) é um pouco lenta e cansativa, principalmente na segunda metade do filme, quando “escorrega” um pouco para chegar ao seu final.
Somando-se prós e contras, o saldo é positivo. O filme merece ser visto, não só pela produção esmerada e bom roteiro e direção, mas também para conhecer um pouco da história fascinante desta poeta do país que nos colonizou e que sabemos tão pouco.
Fugindo de uma visão maniqueísta ou parcial, Paulo e Pedro Morelli – pai e filho – criam um universo riquíssimo em Entre Nós. O filme é um misto de suspense e nostalgia que prende a atenção e emociona, e é dotado de uma doçura dos laços de amizade, e como eles podem ser quebrados. A qualidade do drama brasileiro atual se confirma nessa produção que, apesar de tão pessoal, tem um aura espontânea e verdadeira, mas sem deixar de lado os sentimentos do público.
Os amigos e escritores Felipe (Caio Blat), Lucia (Carolina Dickman), Silvana (Maria Ribeiro), Gus (Paulo Vilhena), Cazé (Júlio Andrade) e Drica (Martha Nowill) se reúnem numa casa de campo para desenterrar uma cápsula do tempo feita dez anos antes com as cartas de cada um, inclusive do amigo morto nessa época, Rafa (Lee Taylor). Suas vidas estão mudadas, e esse reencontro traz à tona velhas lembranças e um desconforto especial para pelo menos um deles.
O cenário proposto no filme traz algo de paz. Porém, num lugar isolado, parece que a consciência fala mais alto. A presença dos amigos, que deveria ser um momento de alegria, é um peso para Felipe. Logo na primeira cena, ele está naquele cenário imenso, mas isolado – sensação aumentada pela razão de aspecto – fumando um cigarro trêmulo, escondido atrás de grandes óculos pretos. E é hora de entender por quê.
O flashback de 1992 mostra um cenário diferente. Mais sorrisos, uma câmera na mão mais livre e uma fotografia cálida mostram jovialidade e esperança desses amigos numa confraria de autores com esperanças e sonhos. Imagens que, de certo modo, morrem com Rafa. Toda essa mudança é representada poeticamente durante o reencontro, na fotografia pálida, na câmera fixa, na seriedade do figurino de alguns dos amigos e principalmente na árvore que antes cuidava, por assim dizer, da pedra que marca o lugar da cápsula do tempo, e que em 2002 não está mais lá.
Há uma disparidade latente entre esses amigos, com problemas não resolvidos, e os dois Morelli colocam isso no meio de perguntas não respondidas. Por exemplo, por Lucia ser a esposa de Felipe, mas há dez anos ter sido namorada de Gus. Isso pode levantar questionamentos, como se seria ela interesseira e ficou com Felipe por causa de seu sucesso literário. Ainda assim, todos se gostam muito. Principalmente as moças, que dão a liberdade de xingarem umas às outras sem que isso seja um problema.
Mas existe a tensão que é apresentada no começo do filme. Digno de outros mestres do suspense, a trama vai se fechando no culpado mais e mais. Agatha Christie dizia por meio de seu personagem Hercule Poirot que basta você deixar que um mentiroso fale e ele eventualmente se entregará.
Por ser um filme de suspense, é necessário entrar um pouco na trama para fazer a análise. O mistério já é entregue de bandeja no trailer, infelizmente. Mas no filme não demora para entender que Felipe roubou o livro ainda recém-finalizado de Rafa depois do acidente de carro que os dois sofreram. Ele ganha fama e dinheiro, mas é perseguido pelo que o amigo pode ou não ter escrito na cápsula do tempo. Isso se torna uma paranoia, e ele se entrega só falando um pouco aqui e ali. Interessante que a primeira a desconfiar, inconscientemente, é Silvana, numa cena com um plano longo e com um sino ao fundo, como se ela despertasse pela primeira vez. Então, Felipe acha que todo comentário é sobre ou contra ele, o que não deixa de ser parecido com a paranoia do protagonista de O Coração Revelador (Edgar Alan Poe): Rafa é um fantasma que atormenta Felipe.
Seguro na história que contam, os Morelli não julgam e abrem espaço para os outros personagens da trama serem tridimensionais com seus anseios de dúvidas. Felipe não é um vilão superficial, por isso existe mais uma cena de flashback, desta vez no fim do segundo ato, mostrando que ele tentou salvar a vida do amigo, e o rascunho do livro veio junto por consequência. Ao montar e editar o rascunho em forma de livro além de ideias num papel, Felipe acredita com fervor ter direitos à obra, considerando-a parte dele, pois incentivava o amigo a escrever e melhorar. A cena sabiamente foi colocada não no começo porque o espectador – representado por Lucia dentro do filme – já sabe que Felipe vive uma mentira e possivelmente se apressou a julgá-lo. A história mostra mais um aspecto de cinza.
Os diretores não se esquecem dos outros personagens do núcleo, cada um com suas angústias. Drica querendo ser mãe, enquanto Cazé não; a visão autodepreciativa de Gus, que se vê sempre como alguém que não faz nada certo; Lucia, que por causa da farsa de Felipe cai numa espiral de dúvidas; e Silvana não parece se encaixar mais no grupo, principalmente por ter perdido seu par, por assim dizer.
Além de tudo isso, o filme é uma produção original num mar de continuações, remakes e adaptações e impecável tecnicamente. A fotografia de Gustavo Hadba tem poucas, mas excelentes nuances, e consegue fotografar lindamente cenas noturnas, visto principalmente quando Felipe se entrega e, um pouco mais a frente, quando Gus e Lucia se entregam. E o largo aspect ratio 2.39:1 fogem do estigma que a produção nacional tem com a TV, tão comum nas comédias do Brasil.
Entre Nós é um filme cheio de poesia. Os Morelli gostam de trabalhar com metáforas, e é divertido analisa-las. Além do já citado sino, há uma cena de jantar que antecede a retirada da pedra, cheia de closes fechados e tensos. E a belíssima cena em que Drica e Gus discutem sobre depressão enquanto vão descendo um barranco. Na conclusão, os dois estão mais leves e se ajudam a subir de volta. A mais forte, ainda que menos clara, é a do besouro, que aparece três vezes durante a projeção. Em entrevistas, Paulo Morelli já foi perguntado mais de uma vez o que esse símbolo quer dizer, e ele sempre devolve a pergunta, o que não deixa de ser a função da crítica. Tanto Felipe como o besouro de costas estão presos na sua situação, e não conseguem sair delas sozinhos. É necessário um agente externo, um empurrão para que isso aconteça. Mas depois de tanto passar, tanto saber, como voltar para a sua vida normal? De novo, pai e filho na direção não dão as respostas mastigadas, mas deixa-nos imaginar dentro desse doce e triste universo. Seja lá como for, uma coisa é certa: no fim, ninguém sai incólume. Nem os amigos, nem nós, o público.
Beto Besant entrevista o elenco do filme SOS Mulheres ao Mar: Giovanna Antonelli, Emanuelle Araújo, Marcelo Airoldi, Fabiula Nascimento e Thalita Carauta.
Ao fim da sessão de Ninfomaníaca – Volume 2, é notório que seria melhor assistir as duas partes do novo filme de Lars von Trier juntas. No máximo, com um intervalo de quinze minutos entre uma e outra, pois fica claro que a história não foi pensada para ser dividida. Apesar disso, a segunda parte – ou melhor, o terceiro ato – tem um ritmo melhor e mais interessante. Essa indesejada quebra deve servir de incentivo para assistir o filme completo e sem cortes, como era a ideia do diretor.
Nessa parte, Joe (Charlotte Gainsbourg) continua contando suas experiências para Seligman (Stellan Skarsgård), focando agora na perda de sua sexualidade e na busca por reavê-la de qualquer jeito, concluindo com os últimos três capítulos: “A Igreja Ocidental e a Oriental (O Pato Silencioso)”, “O Espelho” e “A Arma”.
ATENÇÃO: Essa crítica não é recomendada para menores de 18 anos e contém spoilers do Vol 1.
Primeiro, uma sugestão: reveja o volume 1 antes de partir para o 2 com o menor tempo diferença possível. O problema do corte entre um outro é perceptível logo nos primeiros dois minutos de projeção do segundo filme. A cena final do volume 1 mostra a jovem Joe (Stacy Martin) chorando depois de se reconciliar com Jerôme (Shia LaBeouf). Fica a impressão que o sentir nada que ela expressa é em relação à ele. Mas ela admite logo depois que tinha perdido era, literalmente, o tesão. Depois de centenas – milhares? – encontros sexuais, as relações normais não satisfaziam mais a Joe. Por isso a tristeza, mas isso passa despercebido com a distância entre os filmes.
Vendo um filme perto do outro, você notará as constâncias do diretor: a diferença entre os flashbacks, que continuam tensos, e a tranquilidade da câmera no tempo presente, onde Joe se sente segura, e também análise e paralelos que Seligman faz. Existe um curto ponto de virada onde Joe consegue arrancar do solteirão que ele nunca esteve com uma mulher – ou um homem – o que vai justificar no flashback a leitura sexual que Joe consegue fazer. Interessante que nessa contra-analise é Seligman que ganha o foco momentâneo da câmera, que vai se aproximando cada vez mais da cara redonda do personagem.
De novo, o espectador mais atento vai notar a questão do corte que chegou ao Brasil, mas de menor expressão. Na cena em que Joe e Seligman divagam sobre um ícone russo que representa o nascimento de Jesus, existe um pulo de um momento para o outro. Existem duas percepções que podem ser aplicadas: a primeira é para encurtar pouco a pouco o filme, já que parece que ali havia uma contemplação ou um diálogo mais longo sobre o assunto que se perdeu; o outro está na própria filmografia do diretor. Em Anticristo (Antichrist, 2009), por exemplo, esse tipo de montagem chamada visível – onde a intenção é exatamente essa, notar que o que vemos não é a realidade, mas sim uma representação dela – aparece mais de uma vez. Mas no filme de 2009 ela parece com mais propósito. Seria necessário uma comparação mais profunda, mas valerá a pena rever ambos os filmes para notar isso.
Aliás, o diretor homenageia a própria filmografia em outro momento. Quando Joe – já envelhecida para ser a personagem que conta a história para Seligman – tenta reaver seu desejo perdido se entregando ao sadismo de K (Jamie Bell), ela chega ao extremo de deixar o filho sozinho em casa sem supervisão nenhuma. Nisso, a criança sai do berço numa noite que neva e começa a tocar ao fundo Lascia ch’io pianga, de Handel, a mesma música que foi usada em Anticristo quando o bebê do casal cai da sacada e morre. Sendo o diretor que é, von Trier não se repete, mas cria uma tensão pra quem conhece seus filmes.
A relação entre Joe e Jerôme cria escalas sem precedentes. Por um momento, ele cede à personalidade dela, comparando-a com uma tigresa que precisa ser alimentada e consente que ela tenha outros encontros sexuais para se satisfazer. Ela até pede carinhosamente “preencha todos os meus buracos”, e ele admite que não consegue. Parece por um momento que ele tem uma alma altruísta e que se sacrificaria pelo seu grande amor. O que não dura muito tempo, e o que dá corda para Jerôme fazer certas chantagens emocionais.
O sexto capítulo é o de maiores mudanças na protagonista. O desespero por perder a sua sensibilidade a leva ser esquecida, por isso a gravidez, e o envelhecer rápido. Num período de três anos depois do parto, a personagem deixa de ter a fisionomia de Stacy Martin para a de Charlotte Gainsbourg, ainda que as atrizes tenham quase 20 anos de diferença. Não veja isso como um exagero, porque a intenção do diretor foi evidenciar o que a perda da essência de Joe fez. Algo que ela tinha desde criança e uma ligação num misto de divino e profano. O maior paralelo que Lars von Trier faz nessa passagem de tempo é não mudar o ator que interpreta Joe. Apesar do mesmo tempo passar para os dois, Jerôme ainda tem a cara de Shia LeBouf.
É satisfatório ver a capacidade de von Trier em criar personagens interessantes. Pela duração do filme, isso acontece mais de uma vez. O já citado K tem um jeito tão peculiar de cuidar de suas cadelas, num misto de dominação, dor e respeito que é espetacular. Quando conhecemos o masoquista, notem que nenhuma das mulheres que são atendidas por ele trocam olhares, numa relação de submissão que chega ao ponto dele chamar Joe de Fido – e dar outros apelidos pejorativos às outras mulheres. Ao mesmo tempo em que ele gosta de infligir dor, K tem um carinho distorcido com elas: as ajuda a se despirem, pede um período de descanso para que se recuperem e tem chicotes separados para cada uma delas. É um personagem perturbado que leva Joe à um novo patamar de sua sexualidade. A cena de preparação do espancamento que a protagonista está prestes a levar apenas poderia ser mais longa. A demora para começar e a expectativa do que viria seria muito mais agonizante para o público.
E finalmente temos P (Mia Goth), dotada de uma beleza incomum e inocente. Quando não consegue se adaptar a um emprego normal e entender que a sociedade não a aceitaria, Joe abraça seu lado masculino. Ela trabalha como coletora de dívidas por sugestão de L (Willen Dafoe), um trabalho que é majoritariamente ocupado por homens, e se envolve com P. Essa é outra perversão, diferente da de K, mas também questionável porque a ninfomaníaca cuidou de P desde antes ela se tornar uma mulher. O que era um negócio – onde Joe passaria seu ofício quando P fosse mais velha – virou uma paixão que pela primeira vez lhe trouxe ciúmes.
O que temos neste filme é a busca que muitas outras obras repetiram. Joe procura seu lugar no universo, fora das amarras clássicas da sociedade, representada por uma árvore distorcida, pendendo ao abismo – momento em que a música original aparece pela primeira vez no filme – numa linda relação que ela teve com o pai (Christian Slater). Ela diz nos primeiros momentos da primeira parte que é uma pessoa horrível, e conta sua história para que Seligman a julgue em relação à isso.
Portanto, o ponto-chave dos dois volumes de Ninfomaníaca é exposto claramente na fala de Seligman: a sociedade não se chocaria tanto se Joe fosse um homem. E pela primeira vez todos entenderão por que uma mulher tem um nome masculino. É verdade que atualmente é mais aceitável que um homem transe com inúmeras mulheres ou com mais de uma ao mesmo tempo. Ao trazer uma mulher como protagonista, Lars von Trier dá uma tapa na cara de muita gente. As decisões de Joe foram dela e somente dela. Um dos maiores méritos do filme é a dificuldade de prever o final. Claro, pela nome dos capítulos sabemos que é uma tragédia. Mas a construção de cena dá várias possibilidades, o que não deixa de ser uma surpresa. E o demérito fica pelas cenas de sexo explícito, ainda questionáveis. Os dois filmes devem ser vistos como um só para uma nota mais justa. Por enquanto, fica essa melhora substancial que, agregada à primeira, sem dúvida melhora a experiência. Agora é esperar para a oportunidade de assistirmos tudo de uma vez e confirmar se o sentimento é esse real.
"Cinema é imagem" - máxima cinematográfica quase unânime que provavelmente encabeçaria "Os Dez Mandamentos do Cinema", se existisse tal lista, vez ou outra é posta em cheque por cineastas que buscam um caminho mais autoral ou pelos egressos do teatro. Aqui temos um bom exemplo de como regras podem ser quebradas por quem tem talento.
Em Minutos Atrás, Alonso (Vladimir Brichta) e Nildo (Otávio Muller) são mendigos que seguem pela estrada com uma carroça puxada pelo cavalo Ruminante. Nessa viagem, que não tem caminho determinado nem destino, os amigos reavaliam suas vidas pregressas e futuras, sendo testados sobre suas convicções e capacidade de resiliência. O cavalo Ruminante é interpretado pelo ator/cantor Paulinho Moska que por vezes é revezado com o animal real.
Dirigido pelo poeta e dramaturgo Caio Sóh (que estreou no cinema com o filme Teus Olhos Meus, de 2011), o longa-metragem é uma adaptação de sua peça teatral homônima e consegue um belo resultado na telona. Os atores estão impecáveis em papéis que facilmente poderiam cair no caricato. Um exemplo disso é que o filme consegue uma justificativa para que Brichta pinte o rosto de branco, como numa maquiagem teatral, de forma bem verossímil. Moska alcança um bom resultado em sua interpretação de cavalo.
Os pontos fortes são a fotografia - muito precisa e interessante, ao colocar os personagens coloridos em paisagens preto e branco e a direção de arte - rica e detalhista naqueles personagens miseráveis.
O grande problema do filme foi a opção do diretor em manter a narrativa teatral da peça, onde há um excesso verborrágico. Apesar dos diálogos interessantes, chega um momento em que precisamos lutar a todo custo para não perdermos a atenção no que eles dizem. Para piorar, a trilha sonora de André Abujamra e Paulinho Moska opta por sonorizar o filme a ponto de não deixar um minuto de "respiro" (ou de descanso aos ouvidos), o que somados resultam em algo cansativo.
Esta fábula poderia ser entendida como se os dois amigos fossem aspectos de uma mesma pessoa - Alonso a face mais esperançosa e alegre e Nildo a face mais melancólica e desiludida. A viagem pode ser interpretada como nossa existência e suas dificuldades, que nos propulsiona a enfrentar as dificuldades diárias.
Por vezes acontecem tentativas de subverter a máxima citada no início do texto, o que raramente resulta de forma positiva. Mas este filme consegue mesclar teatro e cinema de forma bastante interessante.
Como é possível preservar obras de arte fundamentais para a história da humanidade em meio aos bombardeios e aos saques, roubos, promovidos pelos nazistas? Hitler tinha como projeto o maior museu de arte do mundo, meticulosamente planejado, e já havia feito o registro das obras artísticas naquele que seria o maior roubo da história, envolvendo 5 milhões de objetos culturais. Ao mesmo tempo em que efetuava esse grande roubo, destruía a arte contemporânea inovadora e crítica, queimando obras de Picasso, por exemplo. Para o nazismo, essa arte era degenerada e tinha de desaparecer. Parece, mesmo, um milagre que o grande acervo cultural da humanidade tenha sobrevivido a essa insanidade toda, da mentalidade nazista e da própria guerra.
Caçadores de Obras-Primas, filme dirigido e protagonizado por George Clooney, se baseou no livro Monuments Men, de Robert M. Edsel, que conta a história de um grupo de homens, um batalhão especial, que se dedicava a salvar obras de arte roubadas, em meio à guerra. Esse grupo, que envolveu homens e mulheres, chegou a ter 350 soldados, de 13 países. Foi a maior caça ao tesouro de que se tem notícia. Começou em 1943, quando o Eixo começava a perder a guerra, e se estendeu até 1951. Na realidade, até hoje se estão encontrando obras perdidas durante a guerra e, surpreendentemente, em grande quantidade, segundo relato de diversas publicações atuais.
Entre as obras-primas que foram perseguidas e resgatadas pelos Monuments Men havia pinturas de Rembrandt, Leonardo Da Vinci, Vermeer e até a Madonna, de Michelangelo, saqueadas de coleções particulares, sobretudo de judeus, igrejas e museus. O livro e também o filme registram a atuação de uma dezena de soldados atuando no resgate das obras, principalmente na França, Bélgica e Alemanha.
A história, sem dúvida, é muito boa e atualíssima. Escrita por um texano que se mudou para Florença para estudar artes e foi aí que se questionou sobre como as obras-primas da civilização ocidental tinham sobrevivido à Segunda Guerra Mundial. Transformou em romance a trajetória desses homens dedicados à arte e seu heroísmo único, com base em extensa pesquisa que visava a resgatar essa verdade histórica tão positiva, abordando a guerra por um novo ângulo. Aliás, são infindáveis os ângulos pelos quais ainda se pode falar da Segunda Guerra Mundial, um assunto que parece inesgotável.
O filme Caçadores de Obras-Primas, além de contar com a figura carismática de George Clooney, desta vez também na direção, teve um elenco estelar vivendo os heróis da guerra pela arte. Matt Damon, Bill Murray, John Goodman, Cate Blanchett e até o astro francês de O Artista, Jean Dujardin, fazem parte do elenco. A produção é bem cuidada. É um filme bem feito.
Algumas coisas incomodam, no entanto. A visão heróica, desprendida, dos Monuments Men, seu patriotismo e destemor, são clichês de filmes de guerra. Os personagens, ainda em 1943, se comportam como se já soubessem de tudo o que viria após o fim da guerra que, diga-se, ainda não estava ganha.
A narrativa é convencional e deixa para os minutos finais de suspense a peça mais importante. Ou seja, o esquema previsível de sempre. Não há inovações, quando muito, reverência aos antigos filmes de guerra. Para uma história tão interessante como essa, o filme deixa a desejar. Não empolga, não brilha. E teria tudo para entusiasmar. Mas nem por isso deixa de ser um filme interessante de se ver. É só não esperar demais.
O cinema brasileiro explora pouco o gênero do horror, do fantástico. Com a relevante exceção de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Fora ele, pouca gente tem se aventurado. Marco Dutra, em parceria com Juliana Rojas, já havia feito uma ótima incursão nesse terreno, com o filme Trabalhar Cansa, de 2011, partindo do realismo do mundo do trabalho, de forma concreta, para chegar a monstros emparedados.
Em Quando Eu Era Vivo, Marco Dutra dirige uma adaptação do livro A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, de Lourenço Mutarelli. O autor do livro tem uma participação especial no filme.
Os temas trabalhados são os vínculos familiares, os fantasmas que por ali circulam e a questão de como lidar com o passado, que assombra, pode paralisar, mas foi quando os afetos se consolidaram. A loucura, o bem e o mal, não poderiam faltar ao gênero. Mas o interessante aqui é que seus limites e possibilidades estão bastante borrados, de modo que é difícil saber o que é uma coisa e o que é a outra. Esse suspense se sustenta até o fim do filme e traz surpresa.
O embate fundamental se dá entre Júnior (Marat Descartes), recém separado por meio de um divórcio traumático, que retorna à casa paterna, e Sênior (Antonio Fagundes), seu pai viúvo, que está tratando de reconstruir sua vida. Júnior se apega ao passado, às lembranças da mãe e do irmão, agora ausente, internado numa clínica. Sênior, ao contrário, enfurnou as coisas do passado num quartinho fechado e tem um apartamento que respira atualidade, preocupações com a saúde e o bem-estar.
A casa é, por sinal, um personagem central do filme. É pelas transformações que vão ocorrendo nela que se configuram os mundos do pai e do filho. Até as cores de iluminação mudam. Do começo para o meio e o fim do filme, a casa se transforma passo a passo, dando lugar às lembranças, obsessões e fantasmas que povoam a vida dessa família, pela ótica de Júnior, em contraponto à do pai. E vão se revelando as coisas não resolvidas da família.
A personagem Bruna (a cantora Sandy), jovem estudante de música, é inquilina na casa e servirá de elemento catalisador das loucuras de uma família da qual ela não faz parte. O irmão ausente, Pedro (Kiko Bertholini), terá sua presença na vida adulta e atual de Júnior e Sênior. Mas os dois irmãos, na infância, e a mãe que morreu, estão presentes no filme pelos registros do passado. A solução do diretor foi filmá-los em VHS e, assim, incluí-los na história. A solução é muito boa, porque a imagem remete ao passado recente dos videocassetes, suas imperfeições e riscos, assim como à cor amarelada.
Misteriosas cabeças de gesso adicionam o elemento fantástico que agrega mais suspense à trama. A filmagem e a interpretação do protagonista-filho nos fazem lembrar do clássico O Iluminado, de Stanley Kubrick, de 1980, em alguns momentos, assim como de outros filmes de terror. Mas Quando Eu Era Vivo explora principalmente o horror psicológico, o das mentes conturbadas, o dos impulsos e dos medos. A violência é moderada e não há sangue jorrando. É tudo mais sutil, situa-se no mundo interno dos personagens.
Um ótimo elenco dá boa sustentação à trama de horror que se desenvolve. Marat Descartes tem se revelado um ótimo ator, com presença marcante em bons filmes brasileiros. Foi o protagonista de Trabalhar Cansa, do mesmo diretor e de Super Nada de Rubens Rewald, por exemplo. Antonio Fagundes é sempre um grande ator em cena, seu Sênior é muito convincente. Sandy Leah canta e lida com música no filme, o que a liga a seu universo habitual, está bem no papel de Bruna. O personagem de Gilda Nomacce se insere na trama com uma atuação cativante. Tuna Dwek participa de uma sequência do filme, pequena, mas muito intensa, um momento forte da história. Não dá para esquecer.
O diretor Marco Dutra reafirma seu talento e se qualifica para novas incursões num gênero de terror que não se distancia do mundo em que vivemos e onde estamos, dialoga com ele, revela seu avesso.
Sempre que se cogita adaptar um livro para o cinema, ainda mais no caso de um best seller, a primeira coisa que se especula é se o filme será fiel ao livro. Como dizia Tim Maia: "Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa". Há que se diferenciar cinema de literatura. O cinema não tem obrigação nem deve manter fidelidade ao livro. E se for preciso antes ler o livro para "entender melhor a história" é porque o filme não foi bem executado. Portanto, vou me ater à obra cinematográfica, o que motiva estes comentários.
Na história, Liesel Meminger (Sophie Nélisse) é enviada junto com seu irmão para morar com um casal alemão - mediante pagamento, uma vez que sua mãe é perseguida pelo nazismo. No caminho seu irmão morre e ela rouba o primeiro livro durante o enterro.
Seu pai adotivo Hans (Geoffrey Rush) é um bom homem, sempre carinhoso e compreensivo, que em muito lhe ajuda a superar as dificuldades de sua nova vida. Por outro lado, sua mãe adotiva Rosa (Emily Watson) é disciplinadora e rígida.
Na escola, a garota conhece o jovem Rudy (Nico Liersch), menino alemão que nutre uma paixão platônica pela garota. Ela porém, deixa subentendido o mesmo tipo de sentimento por Max (Ben Schnetzer), judeu cuja mãe foi morta e seu pai fez muitos favores aos donos da casa, e por isso aceitam a perigosa missão de lhe esconder no porão da casa. Hans e Max lhe ensinam a ler e incentivam para que pegue gosto pela leitura. Conforme surge alguma oportunidade, a menina rouba algum livro.
A história é contada de forma falha e os horrores da guerra são muito suaves comparados aos relatos conhecidos. A direção de Brian Percival erra ao tentar abordar o tema de forma leve, para atingir a todos os públicos, principalmente as crianças - que poderiam se identificar com Liesel e Rudy. O elenco está bem, com desataque para Geoffrey Rush e Emily Watson, que encontram o tom de seus personagens sem caírem no caricato. A fotografia e direção de arte são primorosas, mas o filme peca em tentar arrancar a emoção a todo custo com a trilha melodramática de John Williams.
Mesmo que adaptado, um filme não tem que depender do original, nem por obrigação de manter-se fiel ao livro, nem para que o público possa compreender a história. Este é o típico caso de filme que não se sustenta por si próprio.